| Público - 17 Jan 05
«La
Verdad Es Lo Que Es / Y Sigue Siendo Verdad, / Aunque Se Piense Al
Revés»
Por MÁRIO
PINTO
(Antonio
Machado)
1. Parece que
vivemos hoje, colectivamente, uma espécie de choque de realidade,
que, de repente, dominou o nosso horizonte, por cima das montanhas
das inúmeras versões que dela nos têm vindo a dar oficiosamente os
nossos políticos e os nossos média. Na opinião pública e publicada,
nos jornais, nos parlamentos populares que são diariamente os "fora"
das rádios, para não falar da omnipresente e omni-obsidiante
televisão, são muitas as vozes que hoje convergem num grito aos
partidos: Digam-nos a verdade! Tratem-nos na realidade! Foi neste
encontro do País com a verdade que me ecoaram os versos magníficos
de Antonio Machado, que pus no título desta crónica. Traduzindo, eu
que não sou tradutor nem literato, diria assim: "A verdade é o que
é; / e continua a ser verdade, / mesmo que se pense que não é".
2. À beira de
uma campanha eleitoral, uso o direito de insistir no que penso que é
a verdade. Uma parte dela. Sabemos que, com outros graves problemas
estruturais, temos um grande déficite público, que é alimentado
massivamente pela despesa dos serviços públicos de segurança social,
educação e saúde. Ora, tratando-se de um núcleo essencial do Estado
social, embora não exclusivo, que ninguém quer ver posto em causa, é
contudo necessário fazer distinções na correspondente despesa.
Em primeiro
lugar, os serviços e subsídios que é imperioso que cheguem aos
cidadãos. Isto não deve ter diminuição; ao contrário, é necessário
que aumente, melhore e seja mais equitativo.
Em segundo
lugar, o que se desperdiça com os monopólios públicos burocráticos
que prestam os serviços ou distribuem os subsídios. Há outros
sistemas que poupam mais nessa produção. Para este fim, é
indispensável uma desmonopolização aberta a privatizações e
parcerias público-privados. Esta desmonopolização-privatização exige
a revisão da Constituição, substituindo os monopólios públicos da
saúde e da educação por um sistema misto de instituições públicas
autónomas e de instituições privadas, em regime de sã competição,
regulado e apoiado pelo Estado árbitro, garante e financiador do
sistema e da sua qualidade.
Em terceiro
lugar, o que se gasta injustamente com os princípios da
universalidade, da gratuitidade e do monopólio do Estado, que impõem
tudo igual para todos, tudo de graça para todos, e tudo
obrigatoriamente prestado a todos pela burocracia de Estado. Regime
autoritário este que, além de violar as liberdades fundamentais,
leva a que uma parte importante dos contribuintes tenha de pagar
duas vezes o mesmo serviço: uma vez, ao monopólio do Estado, através
dos impostos; e outra vez, quando legitimamente prefere consumir, a
custo de mercado, serviços equivalentes em instituições privadas.
Isto passa-se na educação, quando se opta por escolas privadas; e na
saúde, quando se vai às instituições de prestações de saúde
privadas, por vezes em caso de grande necessidade. Há que substituir
esses princípios vigentes pelos princípios da diferenciação positiva
e da subsidiariedade, em respeito do espírito da igualdade de
oportunidades. Mas também esta reforma exige a revisão da
Constituição.
3. O serviço
nacional de segurança social, por razões óbvias, não deve deixar de
ser basicamente um seguro universal e obrigatório, em articulação
com o sistema dos impostos. O que não significa
burocrático-monopolista, indiferenciado e uniforme, visto que nem
aqui se podem justificar o autoritarismo, o igualitarismo
burocrático e o despesismo. E direi que é paradoxal que já se tenham
feito reformas de austeridade neste importantíssimo e prioritário
pilar do Estado social e nada de equivalente tenha sido feito na
educação.
4. De uma tal
reforma do nosso modelo burocrático e monopolista de Estado social
poderiam obter-se reduções da despesa que diminuiriam o défice
público e ainda permitiriam alargar e melhorar a justiça dos
próprios subsistemas de serviço público. Sejamos sérios: é justo,
por exemplo, que os estudantes do ensino superior exijam a
gratuitidade do ensino para todos, ricos e pobres, e depois as
pensões sociais mais baixas não possam ser aumentadas porque o
défice não aguenta? Sejamos sérios: é justo, por exemplo, teimar no
monopólio do serviço nacional de saúde universal e gratuito,
permitindo-me a mim, que poderia pagar uma comparticipação razoável
numa eventual operação dispendiosa num hospital público, fazer essa
operação de graça, do mesmo passo que milhões de portugueses,
sobretudo velhos e pobres, por esse país fora, não têm direito a
cuidados odontológicos completos porque estes não estão incluídos no
serviço nacional de saúde? Não, em consciência. E é por isso que
insisto - quase todos, aliás, não fazemos outra coisa senão
insistir.
5.
Recordemo-nos de que os dois monopólios de Estado, na educação e na
saúde, estabelecidos na Constituinte em que havia uma maioria
simples de deputados adeptos de formas de estatismo social, visou
eliminar objectivamente a rede de escolas privadas, em grande parte
da Igreja, e a rede de hospitais privados, em grande parte das
misericórdias, em vez de apenas se lhes adequar uma mais ampla rede
pública, para melhorar o conjunto. Não foi uma opção de política
("policy") de educação; nem de política ("policy") de saúde. Foi uma
opção ideológica e de poder político de Estado ("politics"). E
continua a ser, e não só nestes sectores.
Então
admite-se lá que a incompetência da Administração Pública escolar
centralista (digo bem: da Administração) venha dar lugar a tantos
erros na colocação de professores, que agora resultam em emprego
duplicado para os professores que entraram sem direito e para os que
não entraram tendo direito: isto é, mais professores com horário
zero, uma originalidade portuguesa? Parabéns aos sindicatos. Então
admite-se lá que continuemos com um excesso absurdo de Escolas
Superiores e Faculdades Públicas de Educação, mais do que uma por
capital de distrito, para formar professores de que já temos
excesso, em geral? E que se continuem a anunciar universidades
públicas absolutamente desnecessárias, até na opinião das
universidades públicas já existentes? Então admite-se lá que um
Instituto Nacional de Administração, criado desde há décadas e
sempre dirigido por pessoas competentes e ilustres, nunca tenha tido
a atribuição e os meios para estudar a Administração Pública e as
reformas necessárias? E que só de vez em quando, por milagre,
iniciativa estrangeira ou de governante mais corajoso, tenhamos uma
surpresa de verdade acerca do nosso "monstro"
burocrático-administrativo, como agora com o relatório da IGF
revelado sexta-feira pelo "Diário Económico"?
6. O País está
enredado por si mesmo e em si mesmo. Já ouvi a pessoas sérias, com
prestígio e competência política e técnica, dizer que vai ser
preciso primeiro ir financeiramente ao fundo, para só depois haver
espaço ideológico e politico-eleitoral para se fazerem as revisões
constitucionais e as reformas da Administração Pública contra o
"peso" do "monstro" burocrático estatal.
Pelo que tenho
lido nos jornais, nos últimos dias, em que líderes dos mais
importantes nos prometem centenas de milhares de postos de trabalho
com base no desenvolvimento da economia (da qual não têm o
desempenho e à qual ao mesmo tempo recusam grandes investimentos de
Estado) e além disso na maior qualificação dos portugueses (como
vimos papagueando desde há décadas de reformas educativas e de
formação que se foram sempre desmentindo sucessivamente), se calhar
vai mesmo ser preciso ir ainda mais ao fundo. Será suportável?
Já vimos
líderes políticos ir até ao desastre final, por falta de lucidez e
de coragem de reformar. Por exemplo, há trinta anos, em Portugal. E
a democracia, como creio dizia há dias Pacheco Pereira, e eu
concordo, não nos está garantida apesar de tudo e da nossa própria
incompetência e fraqueza. Salva-nos a União Europeia? Talvez. Mas,
mesmo aí, ainda teremos de optar: por sermos um país com dignidade
nacional; ou então, humilhantemente transportado no carro-vassoura
da Europa.
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