Diário de Notícias -
24 Set
08
Cavaco Silva diz que crise
financeira vai atingir os portugueses
José Milheiro, TSF Serviço
especial para o DN
Nações Unidas. O Presidente da
República está em Nova Iorque para a 63.ª Assembleia
da ONU
A crise financeira que abalou a
semana passa a bolsa de Nova Iorque vai atingir
Portugal, é o que pensa o Presidente da República.
Cavaco Silva, presente em Nova Iorque para a 63.ª
Assembleia Geral das Nações Unidas, disse aos
jornalistas que na actual crise "todos pagam uma
factura, não só os contribuintes norte-americanos,
por isso, a minha preocupação volta-se para aqueles
que são as vítimas, que tem menos acesso ao crédito,
pagam taxas de juro mais elevadas e tudo isso pode
atingir os portugueses. Quase de certeza que vai
atingir os portugueses", sublinhou o chefe do
Estado.
Cavaco Silva vai estar amanhã na
Bolsa de Nova Iorque para o ritual da abertura do
mercado com o habitual toque do sino de Wall Street.
Tal como disse o Presidente, vai estar no "epicentro
do ciclone financeiro que anda por aí".
Aos jornalistas, o chefe de Estado
disse, estar "muito interessado em ouvir o que é que
se pensa em Wall Street, isto é, o que é que pensam
aqueles que estão no epicentro desta crise que
muitos dizem ser a pior desde 1929".
Cavaco Silva disse ter uma "ideia
sobre aquilo que falhou: reguladores, supervisores,
bancos centrais, a invenção que se fez de produtos
financeiros". Questionado sobre a responsabilidade
dos Bancos nesta crise, Cavaco Silva disse que " a
banca tem responsabilidades quando os reguladores e
os supervisores deixam que eles caminhem por
caminhos de produtos tóxicos". O Presidente adianta
que se "permitiram todas as invenções de tal forma
que agora nem se consegue descortinar o que é que
está dentro dos produtos financeiros que foram
inventados ao ponto de algumas instituições
financeiras dizerem que não sabem se estão ou não a
serem atingidos por esta crise. Os produtos são de
tal forma complexos que eu acredito que nem os
próprios reguladores entendem o que está dentro
desses mesmos produtos".
Ontem em Nova Iorque, o presidente
francês propôs que se fizesse uma cimeira de chefes
de Estado sobre a crise financeira, até ao final do
ano. Uma proposta bem acolhida por Cavaco Silva para
quem "os grandes agrupamentos políticos onde se
encontra a União Europeia não podem deixar de
discutir este assunto e o presidente Sarkozy tem
procurado colocar sobre a mesa esse problema".
Para Cavaco Silva "já existe
cooperação entre instituições internacionais. O
Banco Central Europeu já foi chamado e tem
colaborado na cedência de liquidez em grandes
montantes".
Mas é preciso esperar para ver "como
é que o sistema reage a esta proposta que está a ser
discutida entre a administração norte-americana e o
congresso de 700 mil milhões (seis vezes o produto
interno português) mas há quem diga que não chega
que tem que ser um trilião, isso mostra bem a
dimensão desta crise", adianta Cavaco Silva.
Quando foi recebido na sede das
Nações Unidas, o secretário-geral, Ban Ki-moon,
saudou Cavaco Silva com palavras em português.
Uma satisfação para o Presidente da
República que quer ver o português aceite como
língua de trabalho da Organização das Nações Unidas.
Na cimeira de Julho da CPLP
(Comunidade de Países de Língua Portuguesa) foi
definido como prioridade a projecção e afirmação da
língua Portuguesa nas organizações internacionais.
Execução. Cofres estatais perdem 707
milhões só relativos ao IVA
A receita fiscal está em derrapagem.
Nos primeiros oito meses do ano faltam nos cofres
fiscais pelo menos 595 milhões de euros e só
adiamentos de despesas e excedentes com a Segurança
Social - aumento de contribuições e "cortes" no
subsídio de desemprego - seguram o défice orçamental
entre os 2,2% e os 2,5% do PIB.
Em impostos indirectos, mais
sensíveis ao andamento da economia, o Estado já
perdeu 707,3 milhões de euros, entre Janeiro e
Agosto. Em IVA, "faltavam" 304 milhões de euros,
justificados pelo abrandamento da procura interna -
consumo e investimento - já que a descida do imposto
de 21% para 20% ainda não teve impacte significativo
na receita. Em contrapartida, os impostos directos -
destaque para o IRC, o imposto sobre os lucros -
excedeu as estimativas em 103,8 milhões de euros.
A despesa no sub-sector Estado - por
onde se processa o grosso dos salários dos
funcionários públicos - aumentou 1,7%, apesar dos
gastos com os salários terem caído 0,4%. A despesa
está abaixo do orçamentado - excluindo o pagamento
de 466,2 milhões de euros à REN, para amortização do
défice tarifário - mas ainda assim os gastos com o
pessoal excederam o orçamento em 200 milhões de
euros. O Governo justifica-se com as facturas da
ADSE, o sistema de saúde dos funcionários públicos.
A poupança estatal está a ser gerida
com recurso a adiamentos da despesa, o que explica
parte da poupança de 181 milhões de euros face ao
estimado no Orçamento. Durante os primeiros seis
meses, o governo refreou a entrega de fundos à CGA,
alegando o "excesso de tesouraria" na caixa de
reformas dos funcionários. Em Agosto, acabou a
"folga" mas, em contrapartida, cortou 50 milhões de
euros no pagamento de juros pela manutenção da
dívida pública.
Os investimentos do Estado e
transferências para as câmaras aumentaram 6,7%,
excluído o efeito das transferências para o
Instituto das Estradas (agora financiado com recurso
ao Imposto sobre Veículos) . O acréscimo do
investimento está associado a compras militares.
É a Segurança Social que "salva" o
défice. Um excedente de 1,5 mil milhões de euros, um
acréscimo de 616,6 milhões de euros face a igual
período do ano passado, explicado por um aumento de
7,5% nas receitas e um crescimento de apenas 2,9%
nas despesas. Nos gastos, o destaque vai para o
corte de 126,9 milhões de euros no subsídio de
desemprego e de 20 milhões de euros no subsídio por
doença.