Público -
17 Set
08
Rendas congeladas e casas congeladas
Rui Tavares
Na última crónica, vimos que no imobiliário não há
apenas um mas dois mercados. O primeiro é o de
investimento em imobiliário; o segundo é o de casas
para habitar. O mercado do investimento em
imobiliário - inteiramente legítimo, diga-se - não
se comporta de forma muito diferente de, por
exemplo, o mercado de investimento em arte. Por
muito importante que ele seja, o segundo mercado - o
de casas para habitar - é mais importante. É de
primeira necessidade para as pessoas, que precisam
de casa para viver. E é de primeira necessidade para
as cidades que, quando se esvaziam, se degradam e
apodrecem por dentro.
Se caminharmos vinte minutos pelo centro da cidade,
veremos que os prédios estão vazios, e que isto é um
risco que não podemos correr. A semana passada ardeu
mais um prédio devoluto na Rua da Madalena.
Recentemente apareceu o argumento de que as pessoas
não querem viver na Baixa porque as casas não têm
elevador nem lugar de estacionamento. Isto não faz
sentido. Amesterdão ou Paris estão cheias de casas
sem elevador que são avidamente ocupadas. As casas
aqui na Graça não têm elevador e vendem-se ou
alugam-se rapidamente. Há muita gente que moraria na
Baixa, mesmo sem elevador ou lugar para estacionar:
estudantes, jovens casais, profissionais
independentes, classe média urbana e educada. Não o
fazem porque, apesar do mercado de casas para
habitar ser mais importante, o mercado de
investimento imobiliário é que manda nos preços.
Há várias maneiras de lidar com este problema. Uma
delas - a criação de um segmento de rendas a custo
controlado - já foi defendida nesta coluna, e hoje
saltarei adiante. A câmara municipal pode ajudar
colocando parte do seu património no mercado, em
especial alugando-o. E é consensual que a burocracia
municipal tem atrapalhado onde deveria ajudar na
recuperação dos edifícios.
Porém: há alguém que tem em primeiro lugar
responsabilidade sobre a propriedade. Esse alguém é
o proprietário. Se os prédios vazios são um
desperdício e um risco para todos, devem ser taxados
por isso. Ter casas vazias por anos a fio deve ser
taxado como o luxo que é (a lei permite duplicar o
IMI para prédios devolutos; em Lisboa o PSD chumbou
essa proposta na assembleia municipal).
Ah, mas os proprietários estão descapitalizados!
Mais uma vez, estamos mais a falar de um mito do que
de uma realidade. Segundo João Seixas, no seu estudo
de 2004 sobre Lisboa (Estudos Urbanos Lisboa, vol.
4), dois terços das casas vazias do concelho de
Lisboa estavam em boas ou óptimas condições de
ocupação. Os proprietários têm pois capital, sob
forma de imobiliário. O que se passa é que deixá-lo
vazio sai mais barato do que deveria. E pior:
deixá-lo cair parece não ser penalizado de forma
dissuasora.
Se os prédios vazios são um desperdício, os prédios
degradados são um verdadeiro delito contra a cidade.
A descapitalização não é desculpa - nunca é desculpa
- para mais ninguém. Se eu for apanhado pela Brigada
de Trânsito não posso dizer-lhes que estou
descapitalizado e não pude fazer a inspecção
periódica ou pagar o seguro obrigatório do meu
carro. Se o meu rebanho destruir a seara do vizinho,
quem se interessa se eu não pude pagar uma cerca? Os
seus proprietários devem pagar pelas externalidades
negativas dos prédios ao abandono, sem desculpas.
Independentemente da burocracia municipal, das
rendas congeladas, ou de qualquer outra
justificação, a manutenção do edifício é obrigação
moral e legal do proprietário. Está demasiado barato
deixar prédios vazios a cair ou a arder nas nossas
cidades. E está na hora de falar menos em rendas
congeladas e olhar mais para as casas congeladas.