Público -
17 Set
08
Vêm aí mais falências, mas não o fim do mundo
José Manuel Fernandes
A reestruturação do sector financeiro já começou. E
ao mais alto nível. Sendo que, para exterminar os
seus males, nem sempre salvar os focos da infecção é
a melhor das políticas
Ao contrário do Lehman Brothers, um banco de
investimento sem balcões abertos ao público, a crise
na maior seguradora americana, a AIG, tem milhões de
clientes e, quando as más notícias sobre a sua saúde
se espalharam, logo em Lisboa houve quem quisesse
liquidar as suas apólices. O que quer dizer que se o
desaparecimento do Lehman Brothers e a absorção do
Merrill Lynch pelo Bank of America se passou no
mundo relativamente fechado da banca de
investimento, a possível falência da AIG pode
afectar directamente o grande público. Mais: uma
possível queda da AIG deixará expostas dezenas de
instituições financeiras em todo o mundo.
Tudo indica que até ao fim do dia de quarta-feira o
destino do gigante americano ficará decidido. E não
há muitas indicações de que as autoridades federais
- o Governo dos Estados Unidos e a Reserva Federal (Fed)
- estejam na disposição de voltar a "nacionalizar"
uma grande instituição, à semelhança do que fizeram
com duas grandes operadoras de crédito de alto
risco, a Fannie Mae e a Freddie Mac. Ontem, a
leitura dos analistas era que, ao deixar o Lehman
Brothers declarar falência, se procurou definir uma
linha imaginária para além da qual os responsáveis
não querem passar recorrendo a dinheiro dos
contribuintes para salvar instituições financeiras
dos problemas que elas próprias causaram.
A Reserva Federal, ao decidir não baixar a taxa de
juro de referência, deu já um sinal que não estará
disposta a seguir um caminho intervencionista que
muitos economistas, incluindo alguns ligados à
política mais prudente e mais conservadora do Banco
Central Europeu, já consideraram aventureirista. E o
que se sabe das intenções do Departamento do Tesouro
é que este quererá acabar com a ilusão de que
funcionará sempre como bombeiro de última hora.
A grande dúvida é a de saber se a AIG resolve os
seus problemas no mercado, por via de um aumento de
capital, ou se, de novo no último minuto, as
autoridades federais consideram que o seu colapso
arrastaria a economia americana (e a mundial). A
ligeira subida dos índices bolsistas em Wall Street
mesmo depois de se saber que a Fed não baixaria as
taxas de juro parecem indicar que regressou alguma
confiança a um mundo onde se vive uma crise como há
muito não se via.
Na verdade, o que afundou a AIG não foram os seus
negócios na área dos seguros, que continuam a ser
rentáveis, mas a sua actividade, algo à margem da
sua missão, como banco de investimento. Em causa
está saber se o mercado vê nos negócios centrais da
AIG valor suficiente para que surjam investidores
dispostos a injectar milhares de milhões de dólares,
procedendo depois à limpeza da casa. É que, apesar
de toda esta turbulência, a verdade é que continua a
haver procura para o que oferecem os bancos de
investimento, sinal de que a economia não parou e
que outros podem ficar com os negócios das empresas
que desaparecem, como antes, por exemplo, os
passageiros de companhias aéreas como a Pan American
ou a TWA se distribuíram pelas companhias rivais mas
mais eficientes.
No meio de todas estas incertezas não há receitas
simples para corrigir uma crise cujas raízes estão
num fenómeno alimentado pelo mercado e por sinais
errados das autoridades de regulação (um fenómeno
que também ocorreu na Europa, mas numa outra
escala). Na verdade, a "bolha imobiliária" que
esteve na origem desta crise existiu por práticas
erradas do sistema financeiro e porque durante muito
tempo se pensou que disponibilizar dinheiro barato
para estimular o investimento e o crescimento não
levaria muitas famílias e investidores a
endividarem-se para além da sua capacidade de
pagamento.
Uma das práticas erradas dos mercados financeiros,
já aqui denunciada há um ano quando a crise estalou,
foi a de olharem demasiado para os resultados de
curto prazo das empresas, traduzíveis na valorização
das suas acções em bolsa, em vez de olharem mais
para o longo prazo. Esta prioridade estimulava os
gestores a assumirem riscos que lhes rendiam prémios
anuais milionários e penalizava as empresas que,
para se reestruturarem, sacrificavam por vezes o
curto prazo.
Do lado das críticas que podem e devem ser feitas às
autoridades norte--americanas (e a algumas
europeias) é que optarem, há um ano, por um
activismo intervencionista alegadamente para acalmar
os mercados enviaram ao mesmo tempo um sinal errado:
o de que estariam lá para salvar quem estivesse à
beira de se afundar. No caso dos Estados Unidos, a
Fed baixou de forma demasiado agressiva as taxas de
juro e tanto o Congresso de maioria democrata como a
Casa Branca de George W. Bush foram generosos nos
cheques que passaram. Comparativamente, o BCE foi
bem mais prudente, apesar das pressões de muitos
governos.
Seja lá como for, a passagem por um processo de
falências, fusões e reestruturações poderá ser
saudável se, no fim, se melhorarem as práticas de
gestão e nunca faltar liquidez para o mais
importante: continuar a emprestar dinheiro às
empresas ou indivíduos que têm projectos sólidos,
inovadores e geradores de riqueza.