Público -
16 Set
08
Criminalidade, família, leis e veto presidencial
Isilda Pegado
É a partir do pequeno delito que a grande
criminalidade avalia o funcionamento do sistema
Leonel Carvalho, que dirige o Gabinete Coordenador
de Segurança, apontou o crescimento da criminalidade
em várias áreas e, no seu entender, as justificações
são três: "diminuição do controlo interno, mais
liberdade nas fronteiras e degradação do conceito da
família" (declaração publicada na revista Sábado de
23 de Agosto de 2008).
A insegurança é visível e constitui uma preocupação
que alastra em toda a sociedade.
O actual Governo, logo no início do seu mandato, fez
aprovar a lei-quadro e a Lei da Política Criminal
(Lei n.º 17/2006, de 23 de Maio) que remetem para
segundo plano a pequena criminalidade(?) na gestão
judicial. Os crimes deveriam ser qualificados de
mais e menos importantes e em função disso a sua
tramitação. Depois veio a reforma do Direito e do
Processo Penal, cuja conclusão transmitida
politicamente é de que a pequena criminalidade não
deve estar sujeita a penas de prisão. Centenas de
reclusos foram postos em liberdade, com o inerente
alarme social.
Estas orientações políticas foram transmitidas e
assimiladas por todos os agentes (do juiz ao
procurador, do polícia ao advogado e até ao homem
comum).
Desde então, os furtos domésticos (casa arrombada
com furtos de valores) são rapidamente arquivados
"porque o lesado não indica suspeitos"(!). Os crimes
de dano e as ofensas corporais são arquivadas e os
queixosos remetidos para o processo cível.
Isto é, a política das "bagatelas criminais" ditou
que a pequena criminalidade não fosse perseguida.
Ora, o sistema testa-se por baixo. É a partir do
pequeno delito que a grande criminalidade afere de
funcionamento do sistema.
Ao deixar passar aquela mensagem de impunidade e
brandura, o Governo criou o lastro para toda esta
criminalidade.
Por outro lado, aquela opção política revela um
verdadeiro desprezo pelo homem comum, pelo crime
real que bate à porta de cada cidadão violentado.
Esta política tem por isso de ser julgada e
rapidamente emendada.
Mas os erros legislativos não se ficam por aqui.
A destruição sistemática da família e do seu papel
constitui mais um factor para a insegurança e
criminalidade que vivenciamos. A família é um corpo
social intermédio com papel determinante na
transmissão de regras de comportamento, censuras
pessoais e apoio em situação de crise. A sociedade
precisa da família.
Ora, leis como a do divórcio (recentemente vetada)
são o sinal político dado à sociedade da
precariedade das relações da família (casamento) e
do desprezo pelo seu papel de interesse público.
Famílias precárias, desestruturadas ou fracturadas
são apontadas em todas as latitudes como factor de
aumento de criminalidade. Por isso, como citei no
início, Leonel de Carvalho aponta como causa da
criminalidade "a degradação do conceito de família".
O Presidente da República usou da coerência política
- vetou a Lei do Divórcio e poucos dias após apontou
o dedo à criminalidade que o país vive.
Parece que outros não querem ver. Se pensam que é
com mais polícias na rua, mais dinheiro ou mais
Juízes que se enfrenta a questão da criminalidade,
estão muito enganados. Tais medidas só custarão mais
dinheiro, mais impostos e mais miséria...
Persistir numa política que elege a
irresponsabilidade, a precariedade e a insegurança
na família é negar a realidade, esquecer o cidadão
comum e fomentar franjas de delinquência. Pode ser
muito ideológico, mas não é realista. E,
infelizmente, são sempre os mesmos a sofrer.
Jurista. Ex-deputada ao Parlamento pelo PSD