Público -
12 Set
08
Proibido discordar?
Pedro da Rosa Ferro
A proibição de discriminar com base na orientação
sexual parece suscitar uma atitude intolerante
1.O "casamento" de Del Martin com Phylis Lyon, duas
senhoras de 87 e 83 anos, respectivamente, provocou
grande comoção mediática, bem como a sentença do
Supremo Tribunal da Califórnia que o viabilizou. Em
contrapartida, foi menos badalada a rejeição, pelo
Tribunal Europeu de Direitos Humanos de Estrasburgo,
do recurso apresentado por Joyce e Sybill Burden,
duas irmãs britânicas de 90 e 82 anos: pretendiam
beneficiar da isenção do imposto de sucessões que é
também concedida aos "casais" homossexuais
registados. Viveram juntas toda a vida, optando por
ficar solteiras para cuidar dos seus pais e tios e
reclamavam os mesmos direitos que são reconhecidos
às Uniões Civis. Em vão: quando morrer uma delas, a
outra terá de vender a sua casa para pagar 40 por
cento do seu valor em sede de imposto de sucessões.
Joyce desabafou com razão: "Se fôssemos lésbicas,
teríamos todos os direitos do mundo. Mas, como somos
irmãs, parece que não temos direito nenhum".
2. Não são casos isolados de "activismo judicial".
São exemplos de uma tendência ou padrão que é
possível reconhecer em episódios repetidos mais ou
menos recentes. Em Boston, as charities católicas
foram forçadas a abandonar o seu programa de adopção
porque o Estado de Massachusetts exige que todas as
agências devem admitir adoptantes homossexuais. Em
New Jersey, uma organização metodista viu degradado
o seu estatuto fiscal por ter recusado ceder as suas
instalações para a cerimónia de união civil de uma
dupla de lésbicas. No Quebeque, uma escola menonita
foi advertida de que deveria conformar-se ao
currículo oficial, ensinando que a homossexualidade
é um estilo de vida moralmente irrepreensível. Uma
fotógrafa foi interrogada na Comissão de Direitos
Humanos do Estado do Novo México porque tinha
declinado a cobertura fotográfica do enlace entre
duas lésbicas. Aqui e acolá, surgem tentativas mais
ou menos conseguidas de assimilar qualquer juízo
negativo sobre a moralidade da conduta homossexual
ao "delito de incitação ao ódio" ou à homofobia, com
a sanção penal correspondente. Enfim, a proibição de
discriminar com base na orientação sexual parece
suscitar uma atitude intolerante e censória contra a
expressão de convicções morais legítimas e razoáveis
- que não ferem o igual respeito devido a todas as
pessoas, enquanto tal - e que são partilhadas por
grandes tradições antropológicas. Porque será?
3. O casamento é uma instituição social pré-política,
solidamente fundada na razão e natureza humanas:
homens e mulheres partilham as suas vidas, geram
filhos e cuidam deles, independentemente de qualquer
governo ou ordem política. A união conjugal é
suficientemente funcional para se constituir a si
própria e subsistir, com assistência mínima, apenas
subsidiária, do Estado. Ao contrário, o "casamento"
homossexual é inteiramente uma criação do Estado.
Sendo estéril e carecendo de metade do material
genético necessário, tem que ser o Estado a tratar
da sua "descendência": destacando e atribuindo
direitos de parentalidade, facilitando a adopção e
subsidiando as formas de procriação assistida que
forem precisas, para satisfazer o "direito à
família" integrante da actual agenda homossexual. De
outro ponto de vista, o casamento é, em sentido
físico, a fonte da sociedade e do seu futuro, o que
não se pode dizer da união homossexual. Ora,
precisamente porque os dois tipos de união não são
objectivamente equivalentes, o Estado tem de
intervir intensiva e vigorosamente para persuadir as
pessoas a acreditar nessa igualdade (ou a
representar que acreditam): tem que "reformar
mentalidades" e educar o povo sobre o que é
"correcto", através da propaganda e, sendo preciso,
do poder de coerção. Ao decretar essa equivalência
como doutrina dogmática, o Estado subverte o
princípio da não-discriminação, transformando-o numa
limitação da liberdade de expressão e da liberdade
religiosa inimagináveis até há pouco tempo. Ao
menos, um pouco mais de relativismo, por favor.
Economista