Público -
10 Set
08
Os números da ministra, os da OCDE e o dia-a-dia
da escola
José Manuel Fernandes
A engenharia estatística
feita para apresentar, de forma artificial, o
sucesso do nosso sistema de ensino obrigou a baixar
os níveis de exigência e é um erro que pagaremos
muito caro no futuro
Para assinalar a abertura do ano lectivo, o PÚBLICO
pediu a 85 professores que dissessem o que iriam
fazer para melhorar a escola. Não escolhemos uma
amostra científica nem procurámos que fosse
representativa, apenas tivemos o cuidado de que
fosse aleatória e de não condicionar as respostas.
Ora lendo o trabalho que hoje editamos verifica-se
que uma grande parte dos professores, talvez a
maioria, afirma ou dá a entender que ensinaria
melhor se o ministério atrapalhasse menos. E são
numerosíssimas as respostas em que se percebe até
que ponto chegou a desmotivação de muitos docentes.
No entanto, milagrosamente, a ministra Maria de
Lurdes Rodrigues e o primeiro-ministro José Sócrates
vieram dizer-nos que tudo corre às mil maravilhas na
área da educação. Há mais investimento (?) e
conseguiram-se melhores resultados a todos os
níveis, sobretudo no sucesso educativo dos alunos.
Distribuíram aos jornalistas alguns quadros em abono
da sua tese, provando que a percentagem de chumbos
diminuiu (mas já não entregaram os números
absolutos, para se perceber melhor o universo a que
se referiam as percentagens...), e ainda disseram,
humildemente, que o êxito se devia aos professores.
O que significa que estamos perante um paradoxo:
professores que viveram um ano conturbado e de
contestação conseguiram o milagre de estarem
fortemente motivados para alcançar os objectivos com
mais sucesso. Não bate certo. Até porque o inquérito
também não encontrou, antes pelo contrário, esses
professores altamente motivados.
Existindo um paradoxo, tem de existir uma
explicação. A primeira seria estarmos perante uma
geração de alunos mais motivada e mais interessada
na aprendizagem e no sucesso. Seria óptimo se fosse
verdadeira, mas é falsa: a maioria dos alunos são os
mesmos do ano passado, só que um ano mais velhos.
Por esse lado não houve milagres.
A segunda explicação é a que foi ontem dada pela
generalidade dos professores que se pronunciaram: há
instruções para chumbar menos alunos, houve exames
mais fáceis e aumentou-se tanto a burocracia que é
quase preciso ser um herói para, como se diz em
eduquês, "reter" uma criança ou um adolescente. É
muito mais fácil deixá-lo prosseguir, mesmo que mal
preparado. Infelizmente é esta a resposta
verdadeira, a resposta que foi sendo antecipada ao
longo do ano lectivo, quando aqui se escreveu que o
Ministério da Educação estava mais preocupado com
boas estatísticas do que com um bom sistema de
ensino e alunos realmente qualificados.
Vale a pena citar, a este propósito, José Pacheco,
director do Centro de Investigação em Educação (CIED)
da Universidade do Minho, que ontem explicou à
agência Lusa que "as elevadas taxas de retenção que
se registavam há uns anos eram incomportáveis para
qualquer Governo, por causa da comparação dos
resultados a nível internacional. Agora reter um
aluno é um processo difícil, o que faz com que,
estatisticamente, haja uma diminuição significativa
dos chumbos".
Ou então Jorge Ramos, especialista em História da
Educação, que concretizou: "Os níveis de exigência
estabelecem-se de acordo com os objectivos esperados
por parte do Estado e o objectivo actual é que toda
a gente termine o seu percurso escolar. As
competências e os objectivos esperados para cada ano
de escolaridade passam a ser definidos em função de
toda a população de uma determinada faixa etária."
Acontece porém que, mesmo utilizando as estatísticas
portuguesas, em particular as do Ministério da
Educação, a OCDE sempre vai produzindo estudos
comparativos que, mesmo condicionados pelos dados
enviados de Portugal e não podendo avaliar fenómenos
como o criticado "facilitismo", permitem comparações
interessantes.
Por exemplo: ficámos a saber que Portugal é um dos
países da União Europeia onde se dedica menos tempo
ao ensino da língua pátria e da Matemática,
precisamente as duas cadeiras centrais, básicas, de
qualquer currículo escolar; ou que os docentes
portugueses de todos os níveis de ensino são os que
dão mais horas de aulas e os que mais tempo têm de
permanecer nas escolas, razão por que é provável que
sejam dos que têm menos tempo para preparar as aulas
e dos que mais horas gastam a preencher papéis e a
desempenhar funções burocráticas.
Fazendo o cruzamento das estatísticas "embrulhadas"
para eleitor ver com as da OCDE e acrescentando a
leitura que os especialistas fazem do "milagre" do
sucesso, só se pode chegar a uma conclusão: depois
da fase da massificação do ensino que, naturalmente,
se traduziu numa perda de qualidade por passarem a
aceder ao sistema alunos com uma base familiar mais
frágil, aquilo que devia ser a fase da qualificação
e da exigência está ser substituído por uma
mistificação que procura transformar o insucesso em
sucesso, fingindo que, assim, se ganhou qualidade.
Num país onde os níveis formais de qualificação da
população continuam ao nível dos da Turquia (só 28
por cento da população entre os 25 e os 64 anos
completou o ensino secundário), este teatro político
não é uma comédia, é uma tragédia que pagaremos
muito caro no futuro.