Portugal Diário -
09 Set
08
Chumbar é mais raro, mas alunos podem não saber
mais
Especialistas dizem que carga burocrática para
reter um aluno é «muito grande»
As taxas de retenção nos ensinos básico e secundário
baixaram, mas especialistas duvidam que os alunos
saibam mais. Chumbar é tarefa cada vez mais difícil
para os professores, numa escola que dizem ser pouco
interessante e exigente, noticia a Lusa.
«A carga burocrática quando se pretende reter um
aluno, sobretudo no ensino básico, é muito grande e
maior do que era há uns anos atrás. Não nos atirem
areia para os olhos porque estes resultados não
significam uma melhoria real das aprendizagens»,
assegura o presidente da Associação de Professores
de Português (APP), Paulo Feytor Pinto.
Em declarações à Lusa, também o director do Centro
de Investigação em Educação (CIED) da Universidade
do Minho, José Pacheco, refere que a descida do
insucesso escolar tem sido operada, nos últimos
anos, por mudanças ao nível da avaliação, tendo-se
transformado o chumbo de um aluno «num processo
complexo e burocrático» para os docentes.
«As elevadas taxas de retenção que se registavam há
uns anos atrás eram incomportáveis para qualquer
Governo, por causa da comparação dos resultados a
nível internacional. Agora reter um aluno é um
processo difícil, o que faz com que,
estatisticamente, haja uma diminuição significativa
dos chumbos. Só resta saber até que ponto isso
corresponde a uma melhoria das aprendizagens»,
afirma o investigador.
Segundo dados divulgados hoje pelo Ministério da
Educação, a taxa de chumbos no ensino básico e
secundário atingiu este ano o valor mais baixo da
última década, com a maior diminuição a registar-se
no terceiro ciclo.
A melhoria global dos resultados confirma, assim,
uma tendência registada desde o final da década de
1990, altura em que os chumbos chegavam a ser o
dobro do que agora, nomeadamente na antiga primária.
Falta de preparação para «pensar»
Para o especialista em História da Educação Jorge
Ramos do Ó, esta evolução é normal e expectável,
tendo em conta o objectivo do sistema educativo nos
últimos 30 anos: «Escolarizar toda a população, de
forma universal».
«Os níveis de exigência estabelecem-se de acordo com
os objectivos esperados por parte do Estado e o
objectivo actual é que toda a gente termine o seu
percurso escolar. As competências e os objectivos
esperados para cada ano de escolaridade passam a ser
definidos em função de toda a população de uma
determinada faixa etária e não em função de uma
elite de meninos. É o esforço que o Estado faz para
excluir cada vez menos pessoas», explica.
«O que é dramático», alerta Ramos do Ó, «é que o
Estado confunde a relação ensino-aprendizagem com a
mera reprodução de conteúdos nos exames», que não
certificam o que os alunos verdadeiramente sabem ou
são capazes de fazer, mas apenas «a sua capacidade
de papagueamento da matéria».
«Há alunos que terminam o ensino secundário com
média de 19 ou 20 valores, mas que chegam à
universidade e não conseguem problematizar. Não
estão preparados para pensar», lamenta o
especialista e professor da Faculdade de Psicologia
e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
O presidente da Associação de Professores de
Português corrobora: «Em Portugal não se avalia a
competência de leitura dos alunos, mas a sua
capacidade de reproduzir o que ouviram o professor
dizer sobre um determinado texto, mesmo que eles
próprios nunca o tenham lido».
Entre o objectivo de todos escolarizar e a pressão
das comparações de resultados a nível internacional,
os especialistas lamentam que a qualidade do ensino
seja medida apenas pelas estatísticas.
«Com mais ou menos sucesso, não penso que a escola
actual seja motivadora e interessante», confessa
Jorge Ramos do Ó.