Diário de Notícias -
09 Set
08
As novas ameaças
Adriano Moreira
É numeroso o grupo de instituições privadas,
nacionais e internacionais que, por definição
estatutária, deve observar e tentar racionalizar a
agenda dos desafios e das ameaças globais, sugerindo
as respostas alternativas que os saberes disponíveis
podem apoiar. Todavia, é frequente a circunstância
de ser a agenda editorial dos meios de comunicação
que determina a nervosa intervenção publicitada, e
rapidamente substituída por uma inquietação dos
poderes políticos atentos às novas agendas
editoriais.
Esta ligeireza, que muito acompanha sobressaltos das
previsões eleitorais, de quando em vez repesca para
a atenção pública de pouquíssima duração temas desde
Chipre ao Zimbabué, do Darfur a Myanmar, que depois
continuam minando o direito, a paz, e a segurança,
ficando como uma espécie de hábito da vida
internacional corrente.
Existem porém questões, que vão ganhando apoio da
opinião pública mundial em crescimento de poder de
intervenção, às quais não é possível estender, ou
continuar a estender, esta prática do lembra e
esquece. O tráfico de armas, o regresso dos cães de
guerra, as ameaças ambientais são desse tipo.
E, subitamente, o tema da fome, e do enfraquecimento
das reservas estratégicas alimentares, em regiões e
países até recentemente longe de tal risco, não
parece que seja susceptível de ficar entregue à
atenção fragmentada tão em exercício. Não obstante
os avisos científicos sobre a explosão populacional
que se multiplicaram no século passado, já com a
preocupação a que Pierre Chaunu e Georges Suffert
(1976) chamaram "a peste branca", a distância entre
a cidade planetária do Norte do mundo, e a geografia
da fome do Sul, foi crescendo de modo que os do
Norte ficaram cada vez mais ricos, e os do Sul
tiveram cada vez mais filhos.
Este desequilíbrio, que contribuiu para animar a
desordem das imigrações, atingiu um ponto crítico
que obriga a não deixar esquecer que o direito à
subsistência, o direito à comida, é um direito
natural, que o seu exercício acompanha a regra de os
seres vivos se deslocarem para onde existam ou
julguem existir os recursos alimentares, que a
explosão demográfica se desenvolve num pequeno
planeta cujas terras e capacidades produtivas
diminuíram. O preceito jurídico que manda que, no
exercício de direitos de igual dignidade, cada
titular deve ceder o necessário para salvaguarda de
todos não é de esperar que tenha larga aplicação
quando tal direito à alimentação está
indissoluvelmente ligado com o direito à vida.
O relatório "Adressing The Global Food Crisis", do
CNUCED, aponta para uma política a longo prazo,
assim como a Equipa Especial de Alto Nível sobre a
Crise Alimentar Mundial, criada em 28 de Abril de
2008 por Ban Ki-Moon, recebeu o especial encargo de
"procurar uma resposta unificada ao desafio dos
preços alimentares, nomeadamente facilitando a
criação de um plano de acção com prioridades e
coordenando a sua execução". Situações concretas
agudizam a gravidade da ameaça, exigindo o novo
plano estratégico do Programa Alimentar Mundial (PAM)
destinado a enfrentar as consequências da crise,
assim como o Banco Mundial criou um fundo de 1,2 mil
milhões de dólares para financiamentos rápidos.
Esta crise não parece ser uma das que podem ficar
submetidas à alternância da atenção e desatenção
política comandada pelas agendas editoriais dos
meios de comunicação, parece mais uma instalada
causa de ruptura da paz, com tendência para agravar
conflitos internos, migrações descontroladas,
violência armada para dominar recursos escassos na
área da energia, das terras férteis, das
matérias-primas. E também para fazer alastrar
situações de catástrofe às quais não poderão atender
nem a acção, nem a oração. As medidas paliativas
anunciadas são naturalmente bem- -vindas, mas
definitivamente é necessária uma meditação mundial
sobre a relação entre os custos das guerras, da
prevenção das guerras, e da animação das guerras,
com o montante dos recursos necessários para atender
às carências dos povos. O desarmamento geral e
controlado permite disponibilizar recursos para
enfrentar as carências com justiça e para evitar a
violação da paz com sucesso.