Diário de Notícias -
08 Set
08
Quatro mil escolas fechadas em 8 anos
Pedro Vilela Marques
Reorganização. Desde 2000, foram encerradas cerca de
um terço das escolas públicas portuguesas então
existentes. Estabelecimentos do primeiro ciclo do
norte do País são os mais visados pela medida
No mesmo período, foram abertas mais 589 EB23
O governo fechou mais de quatro mil escolas - 4255,
mais precisamente -, nos últimos oito anos. Na
prática, a rede escolar foi reduzida em cerca de um
terço, de 12 862 para 8697 estabelecimentos, depois
do anúncio da sua reorganização, no ano lectivo
2000/ /2001. Ao analisar os dados do Instituto
Nacional de Estatística, o fecho de milhares de
escolas do primeiro ciclo merece especial destaque,
com as zonas do norte do País a serem especialmente
afectadas.
No norte de Portugal, passou-se de cerca de três e
quinhentas escolas básicas do primeiro ciclo em 2000
para menos de metade em 2006/2007 - 1555. E nesta
zona é de notar a diminuição, por exemplo, registada
em Trás-os-Montes - de 651 para 161 escolas -, uma
das regiões mais afectadas pelos critérios apertados
que levam ao encerramento de escolas, nomeadamente
quando têm menos de dez alunos.
Critérios esses muito criticados por alguns dos mais
conceituados especialistas portugueses na área da
educação. "Estas medidas aceleram a desertificação
das aldeias", garante Rui d'Espiney, Coordenador
Nacional do Projecto Escolas Rurais e Director
Executivo do Instituto das Comunidades Educativas.
"As crianças têm um papel decisivo na construção de
cenários alternativos de futuro para as aldeias.
Retirá-las das suas terras dificulta esse trabalho",
constata o investigador.
A tese de Rui d'Espiney é reforçada pela de José
Alberto Correia. Para este professor da Faculdade de
Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do
Porto, a escola deve revitalizar as terras mais
pequenas. "As escolas têm de ser pensados como pólos
de interacção social, contra a desertificação rural
e nos centros das cidades".
Na realidade, os números do INE dão razão a José
Alberto Correia, ao indicarem uma diminuição
acentuada de jardins de infância, escolas básicas de
primeiro ciclo e secundárias na cidade de Lisboa -
neste último caso, fecharam 102 das 120 escolas
existentes em 2000/2001. O próprio presidente da
Câmara de Lisboa, António Costa, reconheceu na
semana passada que a ausência de escolas de
qualidade no centro da capital contribui fortemente
para a fuga da população para as periferias, tendo
referido o seu próprio caso como exemplo (escolheu o
concelho de Sintra para viver). Em sentido inverso,
as escolas básicas que conjugam o segundo e
terceiros ciclos aumentaram de forma muito
significativa de oito para 129, o que demonstra a
política do governo de concentração de alunos em
menos escolas. Ao todo, foram criadas 589 EB23 em
oito anos, passando de 30 para 619 escolas.
Rui Canário, também investigador do Instituto de
Comunidades Educativas, mostra-se particularmente
crítico em relação à aposta na criação de grandes
agrupamentos de escolas. "Ainda que os alunos possam
beneficiar de recursos e estruturas maiores, perdem
a cultura da antiga escola primária, com um único
professor generalista". Já para José Alberto
Correia, "nem sequer se pode justificar os
encerramentos com a falta de resultados escolares,
que nunca foram demonstrados, ou com a falta de
condições, porque afinal é o Estado o responsável
por essas escolas".
Apesar das críticas, a política do governo de
encerramento de escolas com poucos alunos vai
continuar.Há dois anos, o Ministério anunciou, em
relação ao primeiro ciclo, que "no reordenamento da
rede escolar, a lista de escolas a encerrar inclui
1418 estabelecimentos, sendo assegurada a
transferência dos alunos para 800 novas escolas mais
bem apetrechadas ". Mas, para Rui d'Espiney, as
escolas pequenas também podem ter esses recursos. "É
tudo uma questão de haver um projecto", conclui.