Público -
03 Set
08
Educação e propaganda: modo de usar
Paulo Guinote
As iniciativas previstas pelo Ministério da Educação
para 2008-2009 têm uma forte componente de
propaganda
No passado dia 21 de Agosto, o Partido Socialista
anunciou que a sua reentrada política em Setembro de
2008 se centraria em dois temas: a educação e as
políticas sociais. Nada que não se adivinhasse
perante a sucessão de sinais que foram sendo
deixados no período pré-estival.
Tendo a educação sido a área da governação que
mereceu uma oposição mais vocal e activa por parte
de uma classe profissional, parece que o PS e o
Governo decidiram usá-la como arena privilegiada
para desenvolverem a sua actividade de propaganda na
preparação das eleições legislativas de 2009.
O mês de Setembro de 2008, com o arranque do ano
lectivo de 2008-09, tornou-se um momento decisivo
nessa estratégia de contra-ataque, sendo o
Ministério da Educação (ME) o principal instrumento
de propaganda ao serviço do Governo em funções e do
partido que o suporta.
Após três anos de constantes queixas quanto ao
desempenho do sistema público de ensino, de lamentos
quanto às estatísticas para europeu ver e de ataque
aos docentes como alegados responsáveis pelo
insucesso educativo, o ME constatou que, apesar da
sua torrente legislativa, corria o risco de se
verificar que nada disso se revelava eficaz em
termos de resultados palpáveis.
Apesar de medidas emblemáticas como as aulas de
substituição, as actividades de enriquecimento
curricular, o Plano Nacional de Leitura (PNL) ou o
Plano de Acção para a Matemática (PAM), a par do
agravamento das condições de trabalho dos docentes,
a caminho do final do mandato começava a ser
evidente a inadequação desta política para a
resolução dos problemas concretos da Educação,
ficando visível que muitas medidas apenas se
destinaram a produzir estatísticas de tipo
"europeu".
Por isso, o ano lectivo de 2007-08 terminou com uma
tentativa de pavimentar o caminho para o sucesso: o
balanço das provas de aferição e dos exames, com
destaque para a Matemática, já deixou no ar a
sensação de que algo de estranho se passou, pois não
são credíveis saltos na progressão dos resultados
como os verificados, assim como se estranharam
justificações que davam o PAM como responsável pela
melhoria dos resultados de alunos que dele não
beneficiaram.
Para 2008-09, foi então delineada uma estratégia
propagandística avassaladora para seduzir a
"sociedade civil" e uma opinião pública cada vez
mais céptica.
Para juntar à distribuição regular de diplomas de
Novas Oportunidades e de computadores portáteis, o
ME/Governo anunciou um investimento de 400 milhões
de euros na Educação e acções de efeito mediático
quase garantido:
-
Criação do Dia do Diploma para os alunos do
ensino secundário, a celebrar em 12 de Setembro.
-
Criação do Prémio do Aluno do Ano, também para o
ensino secundário, com a atribuição de prémios
pecuniários, iniciativa que deve, a breve prazo,
ficar conhecida como o Dia do Cheque.
-
Anúncio da distribuição de livros aos alunos do
1.º ano do ensino, no âmbito das actividades do
PNL.
-
Anúncio da distribuição do "primeiro computador
português", pelos alunos do 1.º ciclo, numa
iniciativa que deve prolongar-se por diversos
meses, tornando difícil a definição para o Dia
do Magalhães, que assim se multiplicará por todo
o ano lectivo.
Todas estas actividades desenvolvidas pelo ME têm
uma forte componente de pura propaganda feita com
intuitos claramente eleitoralistas, entrecruzando-se
com as iniciativas do PS nesta mesma área, numa
promiscuidade interessante do ponto de vista do
marketing político mas a que é possível colocar
sérias reservas do ponto de vista da lisura de
processos.
Poderão os mais crédulos contrapor a estas
observações a bondade de várias das medidas agora
anunciadas. Seria possível aceitar isso, não fosse
tão flagrante que elas, não enquadradas num plano
coerente e articulado das medidas efectivamente
importantes (elaboração de uma nova Lei de Bases,
redefinição do currículo, dos programas
disciplinares e da estrutura dos ciclos de
escolaridade) de pouco valerão em termos de melhoria
das aprendizagens e desempenho dos alunos, a menos
que em todo este processo se introduza a chave a que
este ME já mostrou saber recorrer: os truques de
secretaria para fabricar sucesso. Sejam eles
decretos, portarias ou despachos sucessivos a
validar a transição dos alunos a todo o custo e
independentemente do seu desempenho, sejam exames
com a "qualidade" (tanto na sua elaboração, como nos
critérios de classificação) indispensável para que o
insucesso se torne uma quase impossibilidade.
Como a aposta é que os docentes estejam entretidos
com o labirinto burocrático em que se tornou o seu
processo de avaliação e a tentar perceber
exactamente como vai funcionar o novo modelo de
gestão escolar, tudo se conjuga para que, lá por
meados de 2009, o sucesso esteja garantido, seja o
das estatísticas educativas, seja o da contabilidade
eleitoral.
Resta agora saber se estamos todos - enquanto
sociedade efectivamente preocupada com a melhoria da
qualidade do nosso sistema educativo - disponíveis
para embarcar nesta manobra propagandística ou se há
capacidade para resistir com a devida lucidez e
discernimento ao que não passa de uma estratégia que
visa a sedução eleitoralista das "famílias" a partir
das escolas. Professor do 2.º CEB. Doutorado em
História da Educação