Diário de Noticias
- 29 Set 07
Engenharia das mentalidades
João Miranda
Rui Pereira, ministro da Administração Interna,
defendeu esta semana, numa intervenção realizada na
Escola Superior de Educação de Leiria, que o ensino
dos valores de cidadania nas aulas de Educação
Cívica é essencial para "a mudança de mentalidades e
a construção de um Portugal melhor". Rui Pereira
pressupõe que a transmissão de valores deve ser uma
função do Estado. Mas, dado que a sociedade
portuguesa é pluralista, essa função deve ser
questionada. Se o Estado vai transmitir valores, vai
transmitir os valores de quem? E se numa sociedade
pluralista coexistem valores contraditórios, que
valores é que o Estado deve transmitir?
Pode-se argumentar que o Estado deve transmitir os
valores consensuais. Mas os valores consensuais
estão em todo o lado. Na televisão, em casa, nos
grupos de amigos e nas empresas. Os valores
consensuais são absorvidos por todos os cidadãos
desde a infância. A transmissão de valores
consensuais através do ensino público é um
desperdício de tempo e de recursos.
Pode-se argumentar que o Estado deve transmitir os
valores da maioria. Mas esse é um caminho perigoso.
As minorias têm tanta legitimidade para exigir que o
Estado transmita os seus valores quanto a maioria.
Vivemos numa sociedade aberta e plural em que a
liberdade de pensamento, de expressão e de ensino é
reconhecida a todos sem excepção. O Estado deve
respeitar esse pluralismo abstendo-se de promover
determinados valores em detrimento de outros. Na sua
intervenção, Rui Pereira destacou os valores da
liberdade, responsabilidade, igualdade,
solidariedade e segurança. Ou seja, aqueles valores
que dividem qualquer sociedade. O debate político em
Portugal é precisamente sobre qual deve ser o
equilíbrio óptimo entre liberdade, responsabilidade,
igualdade, solidariedade e segurança.
Pode-se argumentar que os governantes sabem melhor
do que os cidadãos quais são os valores mais
adequados para a sociedade. Mas este argumento
constitui uma inversão da relação entre governantes
e cidadãos. Numa democracia, são os cidadãos que
escolhem os valores que devem orientar o Governo.
Não são os governantes que definem que valores os
cidadãos devem ter. Por outro lado, só a brincar é
que alguém atribuiria a políticos o papel de definir
os valores sob os quais a sociedade deve viver.
Somos governados por um primeiro-ministro que mentiu
para ganhar as eleições, por uma ministra da
Educação que diz que não se arrepende de violar a
Constituição e por um ministro da Administração
Interna que acha normal que um juiz do Tribunal
Constitucional interrompa o seu mandato para servir
o seu partido como ministro. Se os governantes não
têm uma vida ética, porque é que haveriam de ser
eles a definir os valores que devem reger a
sociedade?