Uma das consequências da
modernidade consistiu na passagem de um mundo, cujo
fundamento social era a religião, a um outro no qual
a sociedade passa a encontrar nela própria o seu
fundamento, admitindo apenas como seu soberano os
seus próprios representantes. O que Max Weber
denominou de "desencantamento do mundo" não foi
apenas uma simples separação institucional entre o
religioso e o político, mas sim o processo através
do qual a racionalidade foi conquistando
progressivamente todas as esferas da vida: as
crenças passam a ser consideradas ilusões,
proclama-se a liberdade individual contra o
dogmatismo e contra "a autoridade do eterno ontem".
No mundo moderno, a religião deixou de orientar a
existência colectiva, tornou-se uma opção individual
entre outras.
A ideia positivista de que está
ao alcance do homem e da ciência compreender,
controlar e manipular os fenómenos naturais para
melhorar a condição humana, conjugada com o
materialismo marxista para quem a história se faz
basicamente pela economia e pela política -
subalternizando a cultura e a espiritualidade -,
assim como a convicção radical nascida em França, em
1789, de que "revolução" significa ruptura com o
passado, tudo isso levou ao surgimento do que se
pode chamar um humanismo secular, substituindo-se às
religiões. "O homem europeu", diz o teólogo católico
George Weigel, "convenceu-se de que para ser moderno
e livre tem de ser radicalmente secular." Tem de
relegar para o museu das velharias a fé religiosa,
assimilada a tudo o que é antiquado, bafiento,
retrógrado e castrador da criatividade humana.
Nomeadamente procurou apagar os fundamentos
judaico-cristãos da civilização europeia, ajudando
deliberadamente a esquecer a sua própria história -
o debate a propósito do preâmbulo da Constituição
Europeia é disso um exemplo esclarecedor.
Se olharmos os manuais escolares
- que são sempre um barómetro da ideologia dominante
numa determinada sociedade - apercebemo-nos desta
realidade. Em Portugal, e creio que não será muito
diferente noutros países europeus, eles praticamente
omitem o papel das religiões. Nos anos decisivos da
formação do adolescente - dos 11 aos 15/16 anos -
não há nos manuais de Língua Portuguesa, de História
e de Formação Cívica nenhuma introdução séria ao
fenómeno religioso, mesmo da religião cristã, onde
as poucas explicações pecam pelo simplismo e falta
de rigor. O islão surge sob a forma simpática de
lendas que alimentam a mitologia, nomeadamente de
amores impossíveis entre cristãos e mouros e de
relatos de bravura e honradez nos combates pela
Reconquista. Ou então sob a forma de folclóricas
encenações de casamentos árabes... Quanto ao
judaísmo, é o que sai mais maltratado, em primeiro
lugar pela ausência: nos manuais escolares, a
religião judaica simplesmente não existe, nem como
religião, nem como presença histórica, restam apenas
os preconceitos, esses sim amplamente veiculados, e
uns vagos textos alusivos ao Holocausto. E
inevitavelmente, o relacionamento promíscuo com o
conflito israelo-palestiniano. De uma forma geral, a
religião surge como marginal à história da
humanidade, a não ser como causa de guerras e
atrocidades, e é definitivamente relegada para as
aulas de Religião e Moral.
Os manuais escolares são apenas
um reflexo do que se passa ao nível da sociedade: a
religião eclipsou-se do espaço público e sobretudo
do debate público, tornando-se progressivamente numa
questão apenas do foro privado e individual,
amputada da sua dimensão histórica e colectiva. Ou
seja, de um lado a sociedade, o homem, a história, a
razão e o progresso; do outro a fé que, privada da
sua seiva, se vai estiolando ou pervertendo. Se há
algo no discurso recente do Papa Bento XVI que nos
interpela, é a condenação dessa marginalidade a que
a humanidade progressista ocidental confinou a
religião, neutralizando-a e tornando-a "inofensiva",
porque esvaziada do seu conteúdo vivo e
interveniente. Com duas consequências: em primeiro
lugar, o de dar espaço ao extremismo religioso, em
reacção radical à secularização; em segundo,
tornando mais difícil o diálogo inter-religioso,
porque só uma sociedade que dá espaço ao fenómeno
religioso é capaz de o travar.
O século XX desmentiu todas as
perspectivas radicalmente optimistas de um mundo
convencido da sua auto-suficiência: duas grandes
guerras, o Holocausto, o Gulag, milhões de mortos ao
serviço de ideologias seculares, abriram uma
profunda crise civilizacional e moral da Europa
contemporânea, tornando-a incapaz de se defender, de
defender os seus valores e a sua história, incapaz
sequer de assegurar a sua demografia. O humanismo
secular está em crise e, à medida que vai perdendo o
fôlego, é previsível que a religião ocupe um lugar
de maior relevo na sociedade. A questão que se
coloca é: que religião? Não haverá alternativa entre
o fundamentalismo literal e rigorista e o
secularismo racionalista? Não haverá alternativa
entre a teocracia e o laicismo radical? Acredito que
sim, embora, nos tempos que correm, não pareça
fácil. Mas esse é, em minha opinião, o caminho e a
reflexão que tem de ser feita pelos pensadores e
dirigentes religiosos.
Não se trata obviamente de
regressar ao mundo pré-moderno, nem de pôr em
questão a separação Estado-religião. A separação de
poderes é uma característica da civilização
ocidental e a tensão dela decorrente é fonte fecunda
de criatividade. Não se trata, pois, de misturar o
que não deve ser misturado. Trata-se sim de
reflectir sobre o espaço e o papel da religião na
sociedade, na sua moralização e elevação espiritual
individual e colectiva. Se há um facto
inquestionável na condição humana, é que uma
comunidade não pode sobreviver a uma existência sem
sentido, num universo desprovido de significado. O
racionalismo filosófico é incapaz de fornecer esse
significado e muito menos um código moral. Mas, no
mundo ocidental, o código ético herdado da tradição
judaico-cristã tem vindo a atenuar-se e a tornar-se
irrelevante: o resultado é a confusão moral, o
relativismo e a impotência em defender os seus
próprios princípios.
Demasiado arredada do mundo real, a religião deve,
pelo contrário, participar no espaço público, não
apenas como guardiã indispensável da tradição, mas
também com uma intervenção intelectual e social,
ética e espiritual adequada à realidade de hoje.
Caso contrário não faltarão alternativas para ocupar
o vazio provocado pelo que David Hart chama de
"aborrecimento metafísico".