Público
- 28 Set 06
Sócrates agita fantasma da bolsa
O primeiro-ministro atirou para o debate um
relatório do tempo de Durão Barroso, que já
criticava a solução agora defendida pelo PSD.
Marques Mendes acusou o Governo de ser "estatizante".
BE e PCP criticaram o Executivo por reduzir as
pensões.
O CDS perguntou o que é que havia de errado na
"livre escolha". Por Nuno Sá Lourenço e Ricardo Dias
Felner
"Na bolsa ganha-se e perde-se."
Foi assim que, ontem, o primeiro-ministro, José
Sócrates, alertou para os riscos dos fundos de
pensões e recusou, terminantemente, a proposta do
PSD em transferir obrigatoriamente uma parte dos
descontos para o sector privado. O Governo
compareceu no Parlamento para um debate sobre
segurança social, que ficou marcado pelos fortes
ataques de Sócrates à proposta do PSD. Em mais de
uma ocasião, o primeiro-ministro frisou existir a
possibilidade de uma pensão poder ser afectada
devido aos maus resultados da bolsa. "[Os fundos]
são carteiras de títulos cuja rentabilidade está
dependente do mercado de capitais."
O chefe do Governo afirmou ser "publicidade
enganosa" afirmar que a capitalização tornaria
necessariamente as pensões mais elevadas a médio
prazo. Fez as contas aos últimos anos e
apresentou-os em São Bento. "Os dados que são
conhecidos mostram que desde o início da década de
90 os resultados da aplicação de uma carteira média
de fundos de pensões, descontados os custos de
gestão, foi de cerca de 5,7 por cento ao ano,
enquanto o crescimento das receitas do sistema
público de Segurança Social (também líquido de
custos de administração) rondou os 6,1 por cento",
defendeu.
O líder socialista classificou ainda a proposta
"irresponsável" e "inexequível" pelos custos que
implicava para o erário público: "Se seis a oito
pontos percentuais das contribuições dos actuais
trabalhadores com menos de 35 anos fossem desviadas
para contas individuais, o sistema público
acumularia uma dívida, em 30 anos, antes de qualquer
redução de despesas, entre 100 mil e 135 mil milhões
de euros." Depois de considerar inaceitável o
carácter "obrigatório" da proposta do PSD, acusou
mesmo Marques Mendes de "obsessão ideológica".
O relatório escondido
de Durão
O primeiro-ministro surgiu ainda com uma arma
secreta neste debate, sob a forma de um relatório de
2003, "pedido à Mercer", precisamente sobre o
sistema complementar obrigatório. De acordo com
Sócrates, o relatório sustentava que "uma escolha
inadequada de carteira poderá ter como consequência
uma pensão reduzida" e que podia provocar "o aumento
em 60 por cento da taxa contributiva para os
benefícios se manterem iguais". O chefe do Governo
perguntou a Mendes por que é que o estudo não havia
sido tornado público. "Isto é o que dizia o vosso
relatório, não foi um relatório encomendado por este
Governo", rematou.
A recusa do Governo levou o presidente do PSD,
Marques Mendes, a criticar Sócrates por estar preso
ao Congrsso do PS: "O seu problema é que tem um
congresso à porta e uma certa esquerda à perna."
Mendes apoiou-se em contas. Assegurou que o sistema
complementar obrigatório representava um gasto mais
pequeno que a proposta do Governo. Nove mil milhões
de euros contra 100 mil milhões, precisou: "As
necessidades de financiamento do período de
transição, para que não acha redução de pensões,
será assegurado pelo Fundo de Estabilização da
Segurança Social e pelo recurso a dívida pública de
longo prazo, sendo que neste caso nunca em valor
superior a nove mil milhões de euros ao longo de
todo o período de transição." Questionou ainda a
fiablidade das contas de Sócrates, com o argumento
de que "os especialistas são os mesmos" que nos
governos de António Guterres tinham prometido a
manutenção do sistema por mais 100 anos. "Quem é que
vai acreditar que quem falhou à cinco anos vai
acertar agora?", questionou.
Foi o ex-secretário de Estado, Pais Antunes, a
responder sobre o relatório da Mercer. Acusou
Sócrates de omitir as conclusões. "Não o divulgou
porque ele contradiz o que agora anda a dizer."
Já o CDS centrou a sua argumentação na "liberdade de
escolha", uma vez que a proposta do partido permite
a opção por um sistema misto. "Qual é o medo que o
senhor e o seu Governo têm de que os portugueses
possam escolher? Só por preconceito ideológico",
criticou o deputado Mota Soares.
Na resposta, Sócrates argumentou que nada tinha
contra o princípio, a não ser os efeitos nefastos
para as contas da Segurança Social. "Nada teria a
opor à possibilidade de livre escolha numa parte
marginal do sistema se não tivesse efeitos no
equilíbrio da Segurança Social. Isso seria possível
se existisse um excedente, o que não acontece, e por
isso estou em desacordo."