Público
- 27 Set 06
Ministra apresenta programa de apoio a escolas
problemáticas
Isabel Leiria
Menos alunos por turma, professores fixos, mais
segurança e autonomia são os pedidos de um dos
estabelecimentos seleccionados
Na Escola Básica 2, 3 do Monte da
Caparica, em Almada, os "episódios de violência
diminuíram", mas a "indisciplina aumentou dentro da
sala de aula", sobretudo desde que as aulas de
substituição se tornaram obrigatórias. As taxas de
abandono escolar e absentismo também foram
reduzidos. Ainda assim, o insucesso no 8.º ano chega
a atingir mais de metade dos alunos. No 9.º ano, os
valores estão dentro da média nacional, pela simples
razão de que os estudantes com mais dificuldades não
chegam lá.
"O clima da escola ficou melhor, mas nem todos os
problemas foram resolvidos", sintetiza Inês de
Castro, há 18 anos à frente desta escola na margem
sul de Lisboa, rodeada de bairros problemáticos e
cheia de alunos com carências sociais e familiares.
O antes e o depois é marcado pela designação do
estabelecimento de ensino como Território Educativo
de Intervenção Prioritária (TEIP), um programa
lançado pelo Governo socialista em 1996, que chegou
a abranger mais de 300 escolas, que beneficiavam de
condições especiais em termos de recursos humanos e
de gestão.
A actual equipa do Ministério da Educação ressuscita
agora o programa, elegendo 32 escolas das áreas
metropolitanas de Lisboa (18) e Porto (14) que
poderão apresentar projectos de intervenção e
candidatar-se ao apoio da tutela. "O programa entrou
em morte lenta a partir de 1999, mas, como o
despacho [que criou os TEIP] nunca foi revogado,
conseguimos manter alguns condições", explica Inês
de Castro.
Contratos com as escolas
Uma das condições "fundamentais" traduz-se na
redução do número de alunos por turma - no 1.º
ciclo, até 20 crianças por sala, quando o limite
máximo normal é de 24, exemplifica. Outra condição
chave: "Continuar a beneficiar da fixação do corpo
docente, podendo a escola designar os professores
que, por terem determinado perfil, e apesar de não
serem dos quadros, não precisam de ir a concurso".
São vários os docentes que se mantiveram na escola
nestas condições, "que tinham à-vontade para lidar
com este tipo de populações, algumas no limiar da
delinquência, e que acabaram por tornar-se figuras
de referência", diz Inês de Castro.
Estes são dois dos pedidos que a escola do Monte de
Caparica vai fazer à tutela, no âmbito do despacho
que fixa as condições para assinatura de "contratos
de desenvolvimento para escolas em meio social
difícil" e que foi ontem publicamente apresentado
pela ministra da Educação, Maria de Lurdes
Rodrigues. As escolas com "elevado número de alunos
em risco de exclusão social e escolar" definem um
plano, especificando áreas de intervenção, recursos
e metas. A tutela garante os meios, que podem passar
pela contratação de psicólogos, mediadores
culturais, assistentes sociais. Ou ainda de
vigilantes do programa Escola Segura.
Esta é, aliás, outra das reivindicações da escola.
"O ano passado funcionou pessimamente. Eles
respondem à chamada, mas temos de esperar, já que só
há uma patrulha que tem esta área até quase
Sesimbra". Mas foi o bullying (intimidação física ou
psicológica) que se tornou numa das principais
preocupações da escola.
Roubos e ameaças
"Aquilo que era a violência mais primária assumiu
esta forma, em que os mais velhos oferecem protecção
se os mais pequenos lhes pagarem um bolo todos os
dias. Ou ameaçam que lhes batem à saída se não derem
50 cêntimos. Isto já se passou à minha frente e eu
não consegui castigar porque as vítimas negam e
dizem que é tudo a brincar."
Quanto a verbas, Inês de Castro vai subscrevendo o
discurso da ministra da Educação e elege antes como
prioridade a capacidade de organizar a escola a
reforçar o apoio aos alunos com dificuldades. "Dá
jeito mais algum dinheiro para comprar material, mas
não é a questão central. Precisamos de ter autonomia
para poder gerir a escola de acordo com as nossas
necessidades e não por regras impostas pelos
serviços do ministério e que são muito limitadoras."
O despacho aguarda publicação em Diário da República
e outras escolas previstas nas condições do diploma
poderão depois candidatar-se.
"Cada escola apresenta o seu próprio projecto,
cabendo ao ME o acompanhamento e a disponibilização
dos meios", explicou Maria de Lurdes Rodrigues,
salientando que, muitas vezes, a solução não passa
por atribuição de mais verbas, mas por outra
organização dos recursos e oferta de percursos
escolares alternativos.