Público
- 22 Set 06
Estado, responsabilidade, solidariedade e
liberdade
José Manuel Fernandes
É necessário compreender o que está em causa, sem
disfarces, no debate sobre o futuro da Segurança
Social
Finalmente o debate. Sobre o
sistema de pensões. E com alternativas, visões
rivais e soluções que não se limitam a esgrimir
números. Por isso convém balizar o debate, para que
este seja mais sério e não marcado pela demagogia ou
por tiradas baseadas no preconceito.
Primeiro: o actual sistema baseia-se na
solidariedade entre gerações. A geração que trabalha
paga os encargos da que já se reformou, mais os
"seguros" associados ao sistema de solidariedade
social (desemprego, doença, maternidade, etc.).
Quando se "desconta", não se "desconta" para uma
pensão futura, mas para pagar as pensões presentes,
na esperança de que as gerações futuras façam o
mesmo quando nos reformarmos.
Segundo: a evolução da esperança de vida e a quebra
da natalidade tornam este sistema inviável a prazo.
Só se discute quantos anos "aguenta", não se é
financiável com o actual quadro legal.
Terceiro: as contas que se fazem sobre a
sustentabilidade do sistema ou das soluções para o
reequilibrar são sempre falíveis pois dependem de
muitas variáveis (taxa de natalidade, esperança de
vida, taxa de empregabilidade, ritmo de crescimento
económico, e por aí adiante). É por isso que a
reforma anunciada por Guterres como garantindo o
sistema até 2100 afinal só o garante até 2015...
Tendo por base estes pressupostos, vejamos o que
está em causa e quais as suas possíveis
consequências.
A proposta do Governo mantém o sistema apoiado no
único pilar hoje existente, o da solidariedade
intergeracional. Para que não vá à falência,
introduz vários critérios de que resultarão no
futuro ou pensões mais baixas, ou mais anos de
trabalho, ou mais descontos, ou tudo isso junto. É
uma proposta que confia apenas à mediação do Estado
o dever de solidariedade e procura não penalizar as
empresas, podendo, contudo, penalizar o emprego.
As propostas à esquerda do PS tomam por adquiridos
os benefícios actuais e propõem-se resolvê-los
cobrando um imposto especial sobre o valor
acrescentado bruto das empresas. Formalmente, ao
desligar a contribuição do emprego, esta proposta
poderia representar apenas uma carga fiscal
adicional sobre as empresas, mas ao penalizar as que
têm maior valor acrescentado penaliza também as mais
eficientes. Isto num país onde o Estado e a
Segurança Social já consomem metade do produto
nacional.
As propostas do PSD e do Compromisso Portugal
assentam, com diferenças entre elas, no princípio da
transição do actual sistema intergeracional para um
em que coexista com um sistema de capitalização (ou
até desapareça). Não se trata de "privatizar" a
Segurança Social, mas de aplicar uma parte ou todos
os descontos em fundos que permitam, no futuro,
pagar não a pensão de outrem, mas pagar uma parte,
ou mesmo toda, a sua pensão. Esta solução implica
que o Estado contraia dívida pública para sustentar
o período de transição, pode ou não autorizar
privados a gerir uma parte dos fundos de
capitalização e tem inerente o risco de as
aplicações financeiras correrem mal. Ao criar esses
fundos, que para terem rentabilidade têm de investir
em actividades produtivas, tal solução é geralmente
associada a maiores taxas de crescimento económico.
Nenhuma destas propostas é milagrosa e 100 por cento
segura. Optar entre elas implica saber se preferimos
entregar todas as responsabilidades ao Estado, ou se
preferimos um equilíbrio entre responsabilidade
pública e liberdade individual. A escolha é, pois,
mais política do que técnica, mas não tem de ser
extremada: o modelo mais "liberal" foi adoptado em
países de tradição social-democrata, como a Suécia,
e o estatista vigora em países onde a direita esteve
e está no poder. De fora das tendências vigentes na
Europa só ficam mesmo as soluções do PCP e do BE, o
que nem surpreende.