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Diário de Notícias
- 1 Set 06
Salas de chuto
Maria José Nogueira
Pinto
O Governo
aprovou o novo Plano Nacional contra a Droga e as
Toxicodependências. Esqueceu-se de analisar os
fracassos do anterior plano, o qual tendo sido
sujeito a uma avaliação externa por uma entidade
independente escolhida pelo Governo - o Instituto
Nacional de Administração - dava pano para mangas,
se o objectivo fosse o de aperfeiçoar políticas
públicas numa matéria particularmente complexa e de
efeitos devastadores.
Mas não foi o caso. O acto sensato, e mesmo
corajoso, de submeter um plano nacional a uma
avaliação deste tipo requer sensatez e coragem até
ao fim. Ou seja, assumir publicamente os erros, uma
maçada. Até porque o relatório do INA apresentava
alguns indicadores graves, tais como o aumento do
consumo e do tráfico, por um lado, e a diminuição de
primeiras consultas e de reinserções de
toxicodependentes sujeitos a tratamento, por outro.
Indicadores que terá sido melhor esquecer se nos
lembrarmos que este plano assentava em duas
"conquistas": a metadona e a descriminalização
do consumo de drogas leves.
O novo plano assenta também noutra "conquista": a
criação das chamadas salas de chuto. Um tema muito
mais animado e mediático do que a análise das causas
do fracasso neste combate desigual, o aprofundamento
deste fenómeno que crucifixa gerações, atira para a
rua milhares de homens e mulheres, enche os
estabelecimentos prisionais, propaga doenças
transmissíveis e sem cura, empurra para o abandono
muitas crianças cujos pais perderam todas as
competências parentais e consome, sem resultados
visíveis, recursos significativos.
Aproveita-se um desconhecimento generalizado destes
fenómenos, que se acantonaram nas fronteiras da
Saúde e do Social, uma terra de ninguém, para
sustentar posições que, não estando escoradas nem na
ciência nem na experiência com segurança, oferecem
contudo o atractivo próprio dos temas que sobram ao
folclore ideológico, uma espécie de espuma das
coisas.
Quem cuida de reflectir sobre, por exemplo, os
seguintes aspectos:
- O pressuposto em que assenta esta proposta - ser a
toxicodependência, actualmente em Portugal, a
principal causa de infecção pelo VIH/sida - não se
verifica segundo dados do Centro de Vigilância
Epidemiológico das Doenças Transmissíveis que
demonstram estarmos face a uma nova realidade
epidemiológica desta doença. Sendo que, em qualquer
caso, as salas de chuto não previnem a transmissão
ou reinfecção por via sexual;
- Como medida de redução de risco, nenhum estudo é
conclusivo quanto ao impacto na redução da
toxicodependência problemática. Será, para já,
apenas uma medida avulsa sanitarista de carácter
paliativo;
- Está já calculado o número de pessoas que poderão
ser assistidas por este programa? E que fazer com
aqueles que o não possam integrar?
- Será que uma medida idêntica deve ser adoptada
para a problemática do alcoolismo, tão forte no
nosso país?
Etc., etc..., são muitas as questões que deveriam
ser analisadas rigorosamente antes de assumir esta
medida. O que parece não afligir ninguém, excepto os
próprios toxicodependentes que sabem, por amarga
experiência, que este caminho não conduz a uma luz
ao fundo do túnel, mas condena a um túnel
definitivamente sem luz.
Os decisores políticos, nestas matérias, são os
"donos" dos destinatários, falam por eles, falam
deles e, temo, raramente com eles.
As salas de chuto representam mais uma capitulação,
de todos nós, face a esses e tantos "outros". Dá-se
de barato que pouco ou nada se pode fazer por eles e
entregam-se à sua circunstância, em vez de os
tratar, reintegrar e devolver à vida, às suas
capacidades e ao seu futuro.
Tentadoramente mais fácil, esta medida vistosa tem
ainda a vantagem de se verem livres deles. Mas esta
vantagem está camuflada pelas vestes da falsa
compaixão e, por isso, não etiquetável de
politicamente incorrecta. Fácil, indolor, invisível.
Desde o
Admirável Mundo Novo, de Huxley, até ao
New Age, passando pelo post-modernismo, as
sociedades vão-se afogando no seu próprio modelo de
individualismo libertário. Com a crescente
complexidade dos problemas, a sua globalização, a
fragmentação social, a perda de raízes e
referências, as novas doenças, as desigualdades
estratificadas, o aumento do abandono e da solidão,
o desânimo generalizado, a depressão em cadeia,
podemos dizer que a receita não provou. Hoje, os
homens estão mais sós, mais vulneráveis, mais
tristes e perdidos no seu interior. E se há coisa
que este mundo admirável não previu foi tempo e
paciência para cuidar deles. Daí ter-se vindo a
especializar em medidas
light,
do tipo, "coitados, deixem-nos lá!". E é isso mesmo
o que vamos fazer: pô-los e deixá-los lá.
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