Público -
30 Set 05
Muros e trincheiras
José Manuel Fernandes
O egoísmo contemporâneo está a cavar a sepultura da
sociedade de bem-estar tal como a conhecemos
De certa forma pode dizer-se que tudo
começou há mais de seis séculos, quando uma geração de
príncipes portugueses partiu à conquista do Norte de África
e, depois, à descoberta das rotas do mundo. A "primeira
globalização", como lhe chamam alguns historiadores,
deixou-nos a melancolia da grandeza imperial e, a Espanha,
dois enclaves em Marrocos: Ceuta e Melilla. A primeira, numa
península, tem a fronteira bem defendida. A segunda, cravada
na costa mais a Oriente, é um enclave fortificado. Defende-a
um muro, arame farpado e uns 700 militares. São muitos, mas
mesmo assim poucos para defenderem essa "muralha" das
tentativas quase diárias de "invasão" por parte de centenas
de desesperados que procuram infiltrar-se na União Europeia,
este espaço imensamente rico quando comparado com a sua
extrema pobreza. São trazidos como que no refluxo de uma das
ondas desta nova globalização e, apesar de virem em paz,
deles nos defendemos - e escrevo no plural porque aquele
muro faz parte da fronteira exterior da União -, construindo
barreiras em tudo semelhantes ao muro que já dividiu Berlim
ou àquele que os israelitas constroem para se protegerem da
infiltração de terroristas suicidas. A única diferença é que
não o vemos com o mesmo olhar ferozmente crítico, talvez
porque este seja "nosso" e erguido para "nos proteger".
Cabe perguntar: proteger de quê? E responder com clareza:
dos imigrantes que não desejamos. Dos que vêm da África
subsariana, têm poucas qualificações, possuem outras
culturas e outra cor de pele. Dos imigrantes que a Europa
tem dificuldade em integrar, mesmo quando necessita deles,
gentes que muitas vezes também resistem à integração. Dos
imigrantes que temos receio de receber, porque tememos que a
sua chegada em massa agrave desemprego ou alimente reacções
xenófobas, que, aqui e além, já dão forte sustentação
eleitoral a partidos populistas.
Se pudéssemos escolher, não olharíamos inquietos para o muro
que o Exército espanhol defende, antes estenderíamos
passadeiras vermelhas para receber informáticos indianos
(que a Alemanha quis recrutar) ou, sobretudo, para atrair os
cientistas e empreendedores que têm tendência a preferir os
Estados Unidos. Mas não só é difícil escolher, como a
economia e a demografia obrigam a Europa a abrir as portas à
imigração. Imigração qualificada, seguramente, mas também
imigração de gente que, por estar disposta a arriscar a vida
para saltar um muro em Melilla ou aventurar-se numa batera
pelo estreito de Gilbraltar, está também disposta a limpar
as nossas latrinas, construir os nossos edifícios ou
recolher o lixo nas nossas ruas, trabalhos que muitos
europeus já não querem fazer.
Mais: na maioria dos países da União, em especial nos do
Sul, como Portugal, os nacionais não estão a ter filhos em
número suficiente para assegurar que, no futuro, haverá quem
trabalhe e gere a riqueza necessária para, por exemplo,
sustentar a Segurança Social. No nosso país, por exemplo,
deveriam nascer anualmente cerca de 160 mil crianças para
manter uma demografia equilibrada, mas nascem apenas 110
mil.
Preparem-se pois todos para problemas que nenhum "muro"
resolverá, já que é impossível conciliar o conforto de não
ter filhos, não desejar a companhia de estranhos e esperar
que alguém depois nos pague as reformas. O nosso egoísmo de
hoje está a cavar a sepultura da sociedade de bem-estar tal
como a conhecemos - a tal sociedade que nunca conheceram e
de que afastamos os que assaltam às centenas, todas as
noites, o limite sul da nossa trincheira.