Diário de Notícias - 2
6 Set 05
A cegueira de quem
não quer ver
João César das Neves
Os deuses cegam aqueles que querem perder." Esta cruel máxima da antiga
sabedoria grega parece estar há muito inválida e esquecida.
Mas depois acontecem factos que parecem confirmar a sua terrível verdade. Como o
longo processo de legalização do aborto, a que temos assistido ao longo dos
últimos anos.
O propósito é normalizar uma prática que todas as sociedades, ao longo de todos
os séculos, sempre consideraram horrenda e infame.
Pela primeira vez na História, uma cultura que se toma como civilizada vem
fingindo que o aborto é algo normal e recomendável.
Este propósito vergonhoso tem gerado dramas e conflitos em todos os países
ocidentais.
Entre nós, porém, extravasou em tantos atropelos legais e abusos processuais que
o vício do objectivo acaba apregoado pela forma patética que utiliza.
A primeira tentativa de legalizar totalmente a prática do aborto foi rejeitada
no Parlamento português em 1997.
Mas este resultado viu-se desrespeitado pela própria Assembleia que o tinha
definido, voltando a votar o mesmo diploma, na mesma legislatura, menos de um
ano depois, após ter convenientemente substituído alguns deputados de forma a
assegurar o resultado.
Tendo finalmente aprovado a lei, o Parlamento voltou a autodesrespeitar-se,
propondo a realização de um referendo para confirmar a sua decisão.
Estes episódios justificavam, só por si, a inclusão do processo numa antologia
mundial de trapalhada legislativa.
Portugal votou em Junho de 1998, e o resultado desse referendo significou para o
Parlamento apenas uma coisa tem de haver outro referendo. Foi a única conclusão
que os deputados retiraram da vontade do povo. "Enquanto os eleitores não
concordarem connosco, vão votar até aprender."
Mas, quando se julgava que se tinha atingido o limite da vergonha democrática,
eis que nos vêm agora surpreender novas e ainda mais mirabolantes manigâncias.
Por razões desconhecidas, alguém decidiu que o novo referendo tem de ser feito
este ano.
Como a abstenção foi o principal problema do referendo anterior, inserir esta
consulta à pressa a meio do trimestre de Inverno, que já inclui duas eleições,
parece tolice rematada.
Mas o povo recebe ordem dos deputados para inverter e substituir o anterior
referendo o mais depressa possível.
Para isso, mudam-se os prazos da Constituição, distorce-se a ordem das
legislaturas e atropela-se o mais elementar bom senso, para conseguir tão
teimoso propósito.
Parece que os abortistas pretendem mostrar a todos a sua falta de decoro e de
respeito pela legalidade. Mostram-se ansiosos para se denunciarem como
subversivos e manipuladores.
Explicam a urgência pela necessidade de evitar a prisão e humilhação de mulheres
pela prática do aborto. Mas quantas mulheres querem salvar deste destino? Zero.
Não há nenhuma! É um esforço intenso para libertar exactamente ninguém.
Aliás não havia julgamentos desses em Portugal, até precisarem deles para fazer
manifestações.
Outra coisa que os incomoda é a hipocrisia, por toda a gente saber dos abortos
clandestinos sem ligar nenhuma.
Será que também vão propor a legalização da evasão fiscal, perante a ainda mais
esmagadora e generalizada prática ilegal?
Mas o que todas estas coisas pretendem esconder, aquilo que tem de ser ocultado
pela retórica, azáfama legal e balbúrdia democrática, é que ali está uma
criança, que vai ser morta antes mesmo de poder respirar. Está ali uma pessoa
que se trucida.
Os defensores da legalização, naturalmente, negam identidade humana ao embrião.
Tal como os esclavagistas faziam com os negros ou os nazis com os judeus.
Contradizer a verdade conhecida como tal é a base desta abominável campanha. Mas
a cegueira do seu propósito extravasa agora para a afronta nos meios.
É difícil compreender como pessoas civilizadas e cordatas caem nestes extremos.
A não ser porque os deuses cegam aqueles que querem perder.
Ou, como disse Alguém mais sábio, "àquele que tem, será dado; e ao que não tem,
mesmo aquilo que tem lhe será tirado" (Mc 4, 25).