Debate na AR
Sócrates quer que metade do secundário seja
profissional
Nuno Sá Lourenço
Primeiro-ministro quer 650 mil jovens no técnico--profissional
do ensino secundário em 2010
O primeiro-ministro, José Sócrates,
apresentou ontem na Assembleia da República (AR) o Programa
Novas Oportunidades como a resposta para "o problema crítico
para a competitividade de Portugal".
Depois de ter avisado que o tema do debate seria a formação
e qualificação dos portugueses, o chefe do Executivo
anunciou um conjunto de iniciativas destinadas ao ensino
secundário e à equiparação das competências dos adultos sem
o ciclo completo.
"Vamos alargar substancialmente a oferta de cursos técnicos
e profissionais ao nível do 12º ano", anunciou. O
primeiro-ministro comprometeu-se a ter disponíveis para os
alunos do secundário 145 mil vagas em 2010 "num total de 650
mil jovens abrangidos por estes cursos" e representando
"metade da oferta de nível secundário".
Garantiu também que ao nível do 9º ano "as vagas de natureza
profissionalizante" eram para atingir as 27.500.
Sócrates reconheceu mesmo que "um dos principais motivos
para as elevadas taxas de abandono e insucesso escolar"
tinham que ver com a forma como o secundário se tinha
desenvolvido "de forma excessivamente subordinada à
progressão para o ensino superior". A dada altura reconheceu
mesmo a responsabilidade dos políticos no atraso desta
reforma. "Não tem sido tratado porque a política portuguesa
se preocupa com fait-divers." O objectivo é que "as vias
técnicas e profissionalizantes representem metade da oferta
de nível secundário".
O programa inclui ainda a aposta na qualificação dos
adultos, com a triplicação da "oferta de cursos técnicos e
profissionais para educação e formação de adultos", tendo
como meta o milhão de adultos nos próximos cinco anos.
Para tal, o Governo comprometeu-se a "criar até 2010, 400
novos Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de
competências". José Sócrates explicou depois que esta era a
"resposta à altura do problema do insucesso escolar" e um
"imperativo para o crescimento económico, para o emprego e
para a melhoria dos salários".
A oposição mostrou pouco interesse no tema, tendo tentado
trazer ao debate o desemprego ou Orçamento do Estado.
Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, foi o único que
ensaiou o contraditório sobre a qualificação. Afirmou que do
programa anunciado "há seis meses" para a colocação de mil
jovens licenciados em tecnologias apenas 11 estavam já em
estágio. E foi buscar a Agência Nacional para a Formação e
Qualificação de Adultos. "O senhor despediu há três semanas,
os 33 trabalhadores", acusou. Sócrates respondeu que a
demora na colocação dos estágios se devia aos concursos
públicos criados. Sobre a agência, garantiu não ter
despedido ninguém. "Houve contratos que cessaram",
acrescentou antes de rematar que estavam a "aproveitar
estruturas administrativas" que existiam no Estado.
O presidente do PSD, Marques Guedes, depois de dizer que ia
esperar pelo Orçamento do Estado para averiguar da
"concretização" das iniciativas, acusou o primeiro-ministro
de fugir à crise económica e social. Acusou Sócrates de
querer "esconder a crise por causa do Orçamento do Estado":
"Só vai apresentar a factura depois das eleições." Voltou a
falar nos números do desemprego, acusando o PS de ser
responsável por mais 50 mil desempregados entre Junho de
2004 e Junho de 2005. "Esses 50 mil desempregados são seus,
não são meus" gritou Sócrates dando a entender que a maior
parte desse número já vinha dos semestres do Governo de
Santana Lopes.
Também o líder parlamentar do CDS, Nuno Melo, se referiu ao
orçamento. Acusou o PS de insistir no referendo sobre o
aborto para "afastar a atenção do país da discussão
fundamental do orçamento". Jerónimo de Sousa, optou por
contrapor à proposta os números do desemprego. "144 novos
desempregados todos os dias", denunciou, já depois de ter
lembrado que "Durão Barroso veio apresentar aqui um programa
de qualificação poucos meses depois da posse".