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Público - 16 Set 05 NO PAÍS DOS SEM-CRIANÇAS
Longe de estarem assustados pela baixa de natalidade que
assola o seu país, cada vez mais os alemães excluem a hipótese
de serem pais. Sobretudo os homens jovens, prontos a
esterilizarem-se para afastar o risco da paternidade. E os
incentivos dos poderes públicos não parecem convencer estes "objectores
de procriação". Por Odile Benayahia-Kouider
"Tinha acabado de acontecer a catástrofe de Chernobyl , em
1986", conta Retchie. "Eu estava de tal forma desiludido com o
mundo que decidi que não queria filhos. Fui visitar um
urologista em Berlim. Discutimos durante pelo menos cinco horas,
mas a minha decisão estava tomada. Fiz-me esterilizar. Tinha 23
anos."
Há dois anos, Retchie, trabalhador de uma grande empresa de
mudanças do Sul da Alemanha, quis muito ter um filho com a sua
mulher. "Mas isso obrigava a uma nova operação muito dispendiosa
com hipóteses de êxito limitadas." Preferiu desistir.
A Alemanha não só atravessa o movimento de descida da natalidade
mais importante da Europa, como - e esta é uma expressão mais
raramente referida como um mal da sociedade alemã - o "desejo de
crianças" está a diminuir na população masculina. Segundo o site
especializado netdoktor.de, três por cento dos homens alemães em
idade de procriar foram esterilizados em 2000, contra 0,5 por
cento em 1992. Quanto ao número de nascimentos, desceu para
metade entre 1960 e 2004, com 700 mil bebés.
A Alemanha está à beira de se tornar um país sem crianças. A
este ritmo, o país contará com 68,5 milhões de habitantes em
2050, contra os 82 milhões que tem actualmente. Desde que deixe
a porta aberta aos 100 mil emigrantes anuais.
Estupefacção no Governo
Estes números não assustam Retchie: "Não será uma grande perda
para a humanidade. Nunca senti o menor patriotismo pela
questão". Também deixa indiferente Rudolph Korner, 50 anos, que
considera "nada dever à sociedade". Proprietário de uma padaria
de Kreuzberg (um bairro turco e alternativo de Berlim), financia
ele próprio o seu seguro de reforma e de saúde, sem tocar nos
recursos da nação. Há quinze anos, fez-se esterilizar. "Não
sentia em nada a necessidade imperiosa de ter uma criança. A
minha mãe educou-nos na ideia que devíamos ser independentes.
Nunca me quis casar. Mas acho que dava um bom pai." A sua
companheira, Nina, dez anos mais nova, aceitou a sua decisão.
Ela não queria voltar a tomar a pílula "por causa de todos os
químicos que impomos ao corpo". Ele achava os preservativos
"penosos". A esterilização foi "o melhor contraceptivo".
"Recusar as crianças é recusar a vida", exclamou Otto Schily em
Maio passado. O ministro do Interior do Governo de Gerhard
Schroeder acabara de tomar conhecimento, com estupefacção, de um
estudo realizado pelo Instituto Federal da População (BIB).
Até agora, explicava-se a baixa taxa de fecundidade da Alemanha
(1,3 crianças por mulher, contra 1,9 em França) com o mau
funcionamento das instituições públicas: um sistema de cuidados
inadaptado ou inexistente - poucas creches (só 3 por cento dos 0
aos 3 anos são acolhidos nos Lander do Ocidente), quase nenhumas
escolas abertas depois das 14 horas - que obriga as mulheres a
escolher entre a vida profissional e a família.
Para se emancipar do modelo "kirche, kinder, kuche", (igreja,
crianças, cozinha), as alemãs que desejam trabalhar também
renunciaram à maternidade: 26,8 por cento da mulheres de 30 a 44
anos não têm filhos. Entre as que completaram o ensino superior
a percentagem chega aos 40 por cento. As que ousam pôr o seu
bebé numa instituição antes dos três anos são vistas como "Rabenmutter"
(mães corvo).
Poder decidir livremente
Apesar de revelar que a ausência do desejo de ter filhos entre
os jovens adultos está a aumentar e que o interesse dos homens
por bebés é duas vezes mais limitado que o das mulheres, o
estudo do BIB salienta um problema ainda mais profundo. Nos
homens com idades entre os 20 e os 39 anos, 26,3 por cento dizem
não querer ter descendência. E 36 por cento dos "sem-crianças"
querem ficar assim. É duas vezes mais do que há dez anos.
O facto de se viver sozinho, não ter relação estável, de se
estar convencido de que não se tem condições para garantir um
futuro conveniente à descendência joga um papel importante. Mas
a recusa da paternidade é principalmente um reflexo
individualista: as pessoas interrogadas invocam a vontade de
aproveitar a vida, sem serem obrigadas a abandonar os seus
hobbies. As considerações sobre os custos gerados por um
nascimento e as dificuldades de conciliar a vida em família e o
trabalho vêm depois.
"Nunca quis fazer planos de carreira. Sempre vivi o dia-a-dia e
isso não convém a uma vida de família", conta Reiner Schipporeit,
de 53 anos. Há treze anos, uma das suas namoradas, grávida, quis
ficar com a criança. Ele não. Depois do aborto, decidiu fazer
uma esterilização: "O facto de se poder decidir livremente se
nos reproduzimos ou não é que nos distingue dos animais". Os
homens que recusam a paternidade herdaram uma alcunha: "objectores
de procriação".
"O mais inquietante neste novo fenómeno", estima Franz-Xaver
Kaufmann, sociólogo da Universidade de Bielefeld, "é que os
jovens alemães julgam que é aceitável não ter filhos. Os homens
jovens compreenderam que tornar-se pai supõe uma tomada de
responsabilidade não só financeira, mas social, e não estão
prontos a assumi-la".
"É sem dúvida egoísmo", diz Rudolph. "É sobretudo um sinal de
profunda insegurança", confessa Retchie. "Traduz uma
incapacidade de se projectar no futuro", avança Reiner. Rudolph
completa invocando a história: "Talvez esteja ligado ao facto de
termos perdido a nossa identidade com o nazismo. Os alemães
refugiaram-se em valores muito materialistas. Ter uma bela casa,
um grande carro, passar umas belas férias é o principal. Os
filhos são secundários".
"Não sei como vamos fazer uma inversão de marcha", diz Rudolph
Korner. "As condições necessárias a um bom acolhimento das
crianças não estão reunidas na nossa sociedade. Uma família de
quatro filhos é considerada associal. Já quando eu era pequeno,
na Baviera, as crianças incomodavam." Para isso também os
alemães, que são os reis do conceito, inventaram uma expressão
muito sintomática: "Kinderfeindlich" (inimigo das crianças).
Oliver, 47 anos, conta que um dia estava a passear num carreiro
na margem do lago Wansee, em Berlim, com os seus dois filhos
pequenos e dois ciclistas gritaram: "Os miúdos devem andar de
trela!" As histórias de vizinhos anti-crianças não faltam.
Recentemente, o tribunal de Hamburgo deu razão a um casal idoso
que exigia o encerramento de uma creche porque as crianças
faziam muito barulho.
Os anos de letargia
Depois de anos de letargia, os poderes públicos tomaram algumas
iniciativas. O Governo "vermelho-verde" desbloqueou, há três
anos, quatro mil milhões de euros para que as escolas pudessem
receber os alunos durante todo o dia. Algumas localidades
lançaram políticas pró-natalidade. Desde que investiu em
infra-estruturas, Laer, uma pequena cidade de Vestefália, detém
o recorde nacional de nascimentos. No entanto, o presidente da
câmara dos Verdes, Hans-Jurgen Schminke, continua circunspecto.
"Abrimos uma área para 15 crianças com menos de três anos e só
recebemos oito pedidos", conta. "É de questionar se a
necessidade existe realmente."
Por sua vez, Dietmar Tuldi, autarca do SPD da localidade de
Ellern, multiplicou os presentes de boas vindas aos
recém-nascidos: para além da abertura de uma conta de 250 euros,
o dono de um viveiro oferece uma árvore de fruto a todos os
bebés, e o marceneiro uma cadeira de criança. "Há alguns anos,
tínhamos dez nascimentos por ano", recorda. "Agora temos cinco."
A localidade construiu uma magnífica creche que custou 650 mil
euros. "Foi um investimento muito pesado. Seria uma pena
desperdiçá-lo."
A política pró-crianças de Ellern seduziu Uwe Borns. O
engenheiro e a sua mulher, ambos com 37 anos, procuravam um
local de vida agradável para Lennard, de 14 meses, e
instalaram-se no princípio de Julho. Mas Uwe não quer pôr o
filho numa creche antes dos três anos. "Este ano trabalho quatro
dias por semana e a minha mulher um dia. No próximo será ao
contrário." A ideia de aproveitar a oferta de guarda da criança
para trabalhar ofusca-os: "Não pomos crianças no mundo para nos
livrarmos delas rapidamente."
Como deu o passo da paternidade, Uwe tem a impressão de estar no
topo da modernidade. Esta transferência ideológica permitirá
povoar a Alemanha? Não é seguro. Os alemães precisam de uma
mudança radical de mentalidade. Uma revolução procriadora. Caso
contrário, dentro de 40 anos, serão quase uma espécie em vias de
extinção. Exclusivo PÚBLICO/Libération
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