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Expresso - 11 Set 04
Contra ventos e
marés
Alexandra Teté
1. Se tudo correr como
previsto, o sinistro "barco do aborto" partirá amanhã, sem deixar
saudades. Veio escarnecer dos portugueses e das suas leis, com
insuportável paternalismo, e passar um atestado de menoridade a um
Estado de Direito Democrático. Por seu turno, os parceiros nativos
das activistas holandesas levaram ao extremo a sua estratégia de
intimidação habitual: o insulto, a brutalidade verbal, a
intolerância com os que ousam – os “fascistas !” – pensar de modo
diferente. Mas, por ora, deixemo-los em paz. Desejo, sinceramente,
que esta triste experiência possa ajudá-los respeitar os pontos de
vista alheios e a perceber que a liberalização do aborto não é
solução para nenhum problema e não é compatível com a dignidade da
mulher, com a sua humanidade, feminilidade e maternidade.
2. Mas centremo-nos na questão
essencial, que é frequentemente escamoteada. A lei que impede o
aborto livre não é uma lei qualquer. Ela refere-se ao mais
fundamental dos direitos, o direito à vida dos filhos não nascidos:
esses seres humanos inocentes sistematicamente ignorados, com fria
obstinação, no discurso abortista, como se não fosse a sua vida,
precisamente, o que está em causa. Como será possível “debater”
racionalmente o aborto, se não se é capaz de enfrentar este “tabu”?
Por isso, a questão do aborto
não é redutível a uma “questão de consciência” da mulher, a uma
afirmação dos seus direitos, da sua liberdade de escolha ou do
direito ao seu corpo, como por vezes se afirma. Não estamos a falar
do estômago ou do intestino da mulher, mas sim de “alguém”: um
filho, um bebé, uma vida humana, como bem sabe quem engravidou
alguma vez. Todos os progressos das ciências (genética, citologia,
fetologia, bioquímica, etc.) têm corroborado até à saciedade a
conclusão dos cientistas do século passado: "a vida humana começa
no momento da concepção". E a mãe é capaz de reconhecer a
alteridade do seu filho, isto é, de perceber que traz no seu seio um
“outro”.
3. Em resposta, os adeptos da
liberalização do aborto distinguem, por vezes, entre “ser humano”
(ou “vida humana”) e “pessoa humana” e dedicam-se à “demarcação de
linhas”: o nascimento, a viabilidade, o início do
funcionamento do cérebro, o início do funcionamento do coração, a
nidação e outras mais. Mas é impossível identificar um ponto no
desenvolvimento embrionário a partir do qual se encontra a
“personalidade humana”, uma vez que esta vai aparecendo de forma
gradual.
A teoria das x semanas implica,
assim, que haja seres humanos que são semi-pessoas, digamos 20%
pessoa, até que numa dada altura (que também não se consegue
identificar) ficam 100% pessoa. E como isto é absurdo, acaba por
considerar-se que o Estado ou terceiros
devem ser senhores dessa vida, e que essa vida só deve ser
respeitada e protegida quando for “desejada” ou “escolhida” por
outros.
4. E não se diga que a defesa
da vida corresponde a um ponto de vista particular, supostamente
“religioso”, “proibicionista” e “anti-escolha”, que
alguns querem impor a todos. O aborto não
é uma questão religiosa, mas moral e jurídica. Não separa crentes de
não crentes, mas sim posições divergentes quanto aos limites da
protecção da vida humana, que é um dos fins fundamentais do Direito.
Ora, a inviolabilidade e
dignidade da vida humana é património quer do humanismo cristão,
quer do humanismo laico. Aquando da morte de Norberto Bobbio, em
Janeiro passado, recordei uma entrevista
na qual Bobbio explicava as suas razões a favor da vida e
manifestava a sua estranheza pelo facto de que "os laicos deixem aos
crentes a honra de afirmar que não se deve matar" e falava do
“direito fundamental do concebido, esse direito ao nascimento sobre
o qual, na minha opinião, não se pode transigir".
5. Recorde-se que quando estão
em jogo direitos de terceiros a Lei não pode remeter para juízos de
consciência ou “escolhas” individuais. Ninguém é senhor da vida
alheia. E já foi dito que se o Código Penal define como crimes uma
bofetada, um insulto ou um furto insignificante seria estranho e
incoerente que não definisse como crime um atentado à vida humana
como é o aborto.
Por outro lado, o regime legal
vigente permite considerar as
circunstâncias atenuantes ou eximentes – que serão por certo, muito
comuns e dramáticas - e a opção pela suspensão ou não execução da
pena. E não há qualquer hipocrisia aqui: a suspensão ou não execução
da pena, nos casos em que for aplicável, mantém a censura do crime
(salvando, portanto, a função pedagógica do Direito Penal); e ao
mesmo tempo, pondera devidamente, com compreensão, as circunstâncias
que o rodearam.
6. Além disso, não é demais
sublinhar que são várias as vítimas da liberalização do aborto: o
bebé, a sua mãe e também o pai (excepto no caso de violação). Será
muito difícil reconhecer que a reclamação do “direito”, sem
restrições, de abortar o filho que traz no seu seio atinge o mais
íntimo da natureza da mulher, a sua fisiologia, a sua inteligência e
a sua afectividade? Por outro lado, depois de anos e
anos de lutas pelo reconhecimento do
papel e do valor da mulher, da necessidade de colaboração e partilha
com o homem, defendermos que “eles” só serão pais se nós quisermos
faz algum sentido?
No entanto, recusar o aborto
não significa também ignorar o sofrimento de muitas mulheres,
perante maternidades imprevistas. A mulher deve ser ajudada a levar
a bom termo a sua maternidade e podem-se encontrar formas de o fazer
(como muitos de nós o têm demonstrado), evitando acrescentar ao
drama da sua situação o trauma do aborto e o aviltamento da sua
dignidade de mulher e mãe.
7.
Uma última palavra para a "vergonha" de Portugal ser o único país da
União Europeia a proteger, deste modo, a vida humana. É
verdade que Portugal está, por enquanto,
em contra-corrente, mas não há mal nenhum nisso. Ao longo da
história, muitos avanços civilizacionais (a abolição da escravatura,
os direitos políticos dos pobres e das mulheres...) foram
conseguidos pela resistência de uma minoria com razão face a uma
maioria sem razão. E já se notam sinais -
como os progressos científicos no campo da genética e fetologia -
que tornarão moralmente indefensável, numa sociedade decente, que o
aborto seja considerado um "direito", senão por uma minoria
extremista e "fanática".
Entretanto, no meio de tantas
desgraças e verdadeiros motivos de vergonha, não deixa de ser
honroso que Portugal defronte, em combate desigual, os poderosos
deste mundo - os milionários americanos
pró-aborto, as associações e grupos de pressão de diferentes países
financiados pelas clínicas que fazem abortos, as multinacionais
ideológicas, o império politicamente correcto dos media, etc. - em
defesa dos direitos dos mais débeis e fracos e do respeito pelo
outro.
Enfim, este
debate não é propriamente novo... mas pareceu-me necessário
contribuir para retirar a discussão do atoleiro da demagogia. Muitas
vezes penso, contudo, que não serão os
“debates” a resolver o problema – embora possam ser úteis - mas uma
atitude diferente, a vontade de amar a
vida de todos e cada um, sem excepção: velho moribundo ou bebé em
embrião, escorreito ou defeituoso, desejado ou imprevisto, sem
condições…SEMPRE!
Alexandra
Teté
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