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Expresso - 21 de Setembro de 2002
Combater a pobreza
João Carlos Espada
NO CONGRESSO da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) que desde
ontem decorre em Lisboa, terei hoje o prazer de apresentar os resultados de uma
investigação que foi solicitada por esta associação ao Instituto de Estudos
Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Durante um ano, dirigi uma equipa
de investigação, com os mestres Hugo Chelo e Miguel Morgado, que procurou
testar, isto é, confrontar com os factos, muitas das asserções hoje em voga
sobre a riqueza e a pobreza no chamado mundo globalizado. O relatório final será
hoje divulgado sob o título Riqueza e Pobreza (Cascais, Principia, 2002). Nele
procurámos reunir evidência empírica relevante com base em estudos e relatórios
internacionalmente credíveis, todos devidamente identificados e hoje facilmente
acessíveis - logo, facilmente controláveis. Os resultados que encontrámos
contrariam e desafiam vigorosamente muitos dos pressupostos ainda hoje correntes
na nossa atmosfera intelectual.
Verificámos que o crescimento económico contribui decisivamente para melhorar as
oportunidades do maior número, incluindo os mais pobres. Observámos que os
países com economias mais ricas são também aqueles em que as classes médias
cresceram, tornando por isso mais baixos os índices de desigualdade e, além
disso, elevando decisivamente o nível de vida de todos, incluindo os mais
pobres.
Para esse crescimento, observámos que a abertura das economias nacionais ao
comércio internacional é em regra uma condição favorável e não desfavorável. Os
países pobres que começaram a abrir as suas economias ao exterior nas décadas de
1980 e 1990 registaram elevadas taxas de crescimento anual do PIB «per capita»,
bem como taxas positivas de convergência com os países já desenvolvidos. Em
contrapartida, os países pobres que permaneceram fechados revelam taxas de
crescimento muito baixas e taxas de convergência negativas.
A abertura ao comércio internacional de países pobres como a Índia, a China, a
Tailândia, ou o Uganda e o Botswana, entre outros, parece explicar porque a
pobreza absoluta desceu no mundo em termos percentuais entre 1987 e 1998. Apesar
de o aumento populacional neste período ter ocorrido sobretudo em países pobres,
a verdade é que a população nesses países aumentou mais (cerca de 825 milhões)
do que o número de pessoas pobres (15,69 milhões).
Observámos também que outros factores surgem associados ao crescimento
económico: a protecção e estabilidade dos direitos de propriedade; o
reconhecimento pelos governos da liberdade de empreendimento e do papel central
da empresa e do empresário; o reforço das garantias legais fornecidas pelo
Estado de Direito, onde se destaca, entre outros, o controlo da corrupção -
designadamente a corrupção governamental.
Para aqueles que se preocupam realmente com a pobreza no mundo de hoje, isto
terá certamente consequências: o dever moral de auxiliar os que precisam exigirá
sempre medidas directas de alívio do sofrimento humano susceptível de ser
aliviado; simultaneamente, para que essas situações se tornem menos prementes e
generalizadas no futuro, devem ser criadas condições favoráveis ao comércio, à
iniciativa empresarial e ao Estado de Direito.
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