30 de Setembro de 2000 - Expresso

Quem tem medo da avaliação? 

António Pinto Leite

A SIC Fez Uma Notável Investigação sobre os resultados obtidos pelos alunos do 12º ano de diversas escolas nos exames nacionais. 

A amostragem foi, naturalmente, aleatória e o estudo feito não seguiu, como é óbvio, uma metodologia científica. 

Os resultados da análise apontam, todavia, com razoável margem de segurança, para conclusões da maior importância. 

Em primeiro lugar, o sucesso escolar depende directamente da qualidade do ensino que os alunos recebem e do envolvimento global que a escola lhes dá. 

Em todas as boas escolas as médias foram francamente positivas. Numa boa escola quase todos os alunos conseguem bons resultados. 

Nem a suposta aversão nacional à Matemática escapa a esta conclusão. 

O desempenho notabilíssimo de uma instituição pública, inserida numa zona degradada e com alunos de classes baixas ou marginalizadas, em contraste com os fracos resultados de instituições privadas (como o Colégio do Ramalhão), ou públicas (como o chamado «Liceu de Cascais»), frequentados por filhos de classes médias e médias altas, mostra bem como nem o pobre está condenado ao insucesso escolar, nem o rico ao sucesso. 

Seria de todo insensato tomar a excepção por regra e ignorar os factores sócio-económicos envolventes de cada instituição de ensino. Mas seria também um erro não tomar muito a sério as razões do sucesso de escolas que conseguem vencer as adversidades do meio onde se inserem e não procurar generalizar as razões desse seu sucesso. 

Em segundo lugar, em regra, as melhores escolas são escolas privadas, ainda que não se possa estender a todas as escolas privadas o mérito que apenas a algumas cabe. 

Para os pais é fundamental ter presente nas suas opções que nem tudo o que é privado é bom, ainda que o melhor para os seus filhos se encontre no sector privado. 

Conclui-se, assim, que o acesso ao melhor ensino é, igualmente, reservado às famílias que o podem pagar. Isto é, são aqueles que, em princípio, melhor enquadramento cultural têm em casa, ou a quem os pais podem pagar explicações adicionais, quem, ainda por cima, têm lugar nas melhores escolas. 

Finalmente, este estudo jornalístico coloca a questão da informação aberta a todos os cidadãos sobre a qualidade do ensino e os resultados de todas as escolas. 

O Estado deve tornar pública a avaliação de cada uma das escolas, públicas e privadas, doa a quem doer. 

Primeiro, porque a avaliação é feita, quer o Estado queira, quer não, pela comunicação social. Ou seja, o Estado pretende esconder o que não é possível esconder. 

Depois, porque a avaliação feita pelos jornalistas é sempre incompleta e menos rigorosa do que aquela que o Estado pode fazer. O Estado permite, assim, que a opinião pública faça os seus juízos de valor com base em informação tratada sem rigor científico ou estatístico e desinserida do devido enquadramento explicativo. 

Por fim, porque a avaliação das escolas submete todo o sistema a uma transparência e a uma pressão extremamente positivas, ao mesmo tempo que cumpre o direito à informação que todo o consumidor tem, muito em especial, neste caso, os chefes de família. 

Excelência, excelência, excelência. É esta a estratégia. Não há excelência sem responsabilização e não há responsabilização sem transparência e avaliação do mérito de cada um. Cabe ao Estado definir um conceito ponderado de avaliação. 

As melhores instituições serão socialmente premiadas, o que é justo, e as que se encontram em enquadramentos mais adversos só terão a beneficiar com a pressão social que será feita sobre todo o sistema. 

Quem tem medo da avaliação? 
 

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