manifestaram o seu apoio à orientação
seguida pela escola. Os novos docentes foram impedidos de entrar no
edifício e as aulas continuaram como até então.
Como a verba do ministério fora cortada, os pais pagaram os seus
custos e a escola passou a privada. Mas, como o programa oficial não
era cumprido, o ministério proibiu a mudança e tirou a licença de
ensino à escola.
Numa entrevista à televisão, o presidente da câmara declarou que,
tal como em Barrancos, o que estava em causa era uma tradição local.
Se Barrancos tinha direito a touros de morte nas festas, também
Trancão tinha direito a que a sua escola ensinasse. É que, como
explicou, em Trancão, havia uma velha tradição, segundo a qual os
alunos iam para a escola para aprender. Em Trancão, havia exames e quem
não sabia chumbava. Eram velhas tradições, de tempos imemoriais, que
as gentes da vila gostavam de seguir. Nos últimos anos, por imposição
do ministério, as coisas tinham sido diferentes, mas agora tudo voltara
ao normal.
O caso de Trancão deu grande polémica a nível nacional. Debates de
comentadores e políticos, petições à Assembleia, manifestações de
apoio e de ataque. A movimentação era imensa. O País estava dividido.
Faziam-se colectas a nível nacional, para ajudar a pagar as coimas
elevadas com que o ministério ameaçara as autoridades escolares. Os
diplomas passados pela escola de Trancão foram declarados nulos, mas
várias empresas da região anunciaram que os aceitariam e algumas
universidades, invocando a autonomia, imitaram-nas.
Quando, em Junho de 2003, a escola de Trancão fez os seus primeiros
exames proibidos, a comunicação social caiu literalmente sobre a
pacata vila beirã.
Dois dias antes dos testes, já as televisões transmitiam
reportagens em directo da praça principal. Os alunos dirigiam-se para a
escola pelo meio de massas compactas de populares e jornalistas, com
várias câmaras de televisão ao longo do percurso.
Nessa tarde, o senhor ministro da Educação fez uma comunicação ao
País.
Declarou no seu discurso que o Estado era a única entidade que sabia
o que se devia ensinar aos filhos dos portugueses. Os burocratas do
ministério eram pedagogos geniais. O facto de mudarem continuamente os
programas e os métodos de ensino era, aliás, uma prova da sua grande
capacidade pedagógica.
As pessoas não compreendiam o vasto alcance das experiências
únicas que o ministério realizava nas escolas portuguesas.
O que se passava em Trancão, dizia o senhor ministro, era que os
pais e os professores só pensavam no lucro. O problema da escola
privada era esse: só pensa no lucro. O Estado não liga ao lucro (os
impostos não são lucro e o ministério até tem um buraco orçamental)
e os funcionários ainda menos (desde que lhes aumentem os salários
seis por cento ao ano). Ao contrário dos pais e dos professores, a
única preocupação do ministério é não o lucro, mas a educação
das crianças. Por isso, o controlo do ministério sobre as escolas tem
de aumentar. O ministério tem de controlar toda a educação. O
ministro terminou a sua comunicação informando o País do grande
projecto em que trabalhava havia anos: a cadeira de "Educação
Intestinal", que revolucionaria os hábitos digestivos dos
portugueses.
Durante o Verão de 2003, as coisas pioraram. Várias escolas, um
pouco por todo o País, anunciaram que iam imitar Trancão e passar a
ensinar os alunos.
O ministério reagiu criando a "Guarda Educativa", para
defender a pureza da pedagogia. Em resposta, algumas escolas decidiram
passar à clandestinidade.
Em nome da educação portuguesa.