25 de Setembro de 2000 - Diário de Notícias

Barrancos na educação

João César das Neves

Foi com surpresa que, em Janeiro de 2003, a opinião pública soube de um facto insólito: uma das escolas oficiais funcionava havia meses sem licença do Ministério da Educação. Na vila de Trancão, da Beira Baixa, a escola local decidira declarar-se independente dos programas e dos métodos de ensino oficiais. A medida, anunciada pelo Conselho Directivo, tinha o apoio de professores, alunos, pais e até do presidente da câmara.

Tudo começara no Verão anterior, quando os professores de Trancão, fartos das experiências educativas do ministério e suas mudanças constantes, decidiram transformar a escola num sítio onde se aprendesse mesmo. Assim, a partir de Setembro de 2002, a escola passou a ensinar os alunos.

Pouco tempo depois, os inspectores ministeriais encontravam já graves erros e vícios educativos na escola de Trancão. Marcavam-se faltas e impunha-se disciplina nas aulas. Havia exames a sério e alguns alunos não passavam de ano, por não saberem. Estes factos, só por si, geravam a maior indignação nos funcionários do ministério, por contrariarem a política explícita de erradicar tais métodos pedagógicos obsoletos. Mas havia mais. Na disciplina de Português, por exemplo, aprendia-se gramática e tinha-se muito cuidado com os erros de ortografia. Havia mesmo alguns alunos do quinto e do sexto anos que já conseguiam escrever quase sem erros. Vários estudantes do quarto ano sabiam quem eram Luís de Camões e D. Afonso Henriques e conseguiam mostrar num mapa o Minho e o Algarve. Tudo isto, segundo o ministério, era escandaloso num país moderno e mostrava bem a perversão dos métodos distorcidos e aberrantes usados na escola.

A gota de água que fez transbordar o copo foi que nas aulas de Matemática os professores de Trancão tinham o desplante de ensinar a tabuada! Muitas das crianças da vila eram capazes de fazer multiplicações com quatro e cinco algarismos ao mesmo tempo. Os efeitos sobre os alunos eram, como não podia deixar de ser, gravíssimos. Os psicólogos ministeriais identificaram graves complexos e perturbações comportamentais nos jovens da vila.

Em Dezembro, perante a intransigência dos professores e a gravidade das consequências, o Ministério da Educação tomou medidas duras. O Conselho Directivo foi expulso e os professores transferidos para outras regiões.

Nomeando-se um novo corpo docente, as coisas deveriam voltar à normalidade.

Foi então que o caso saltou para a praça pública. Os alunos e os seus pais manifestaram o seu apoio à orientação seguida pela escola. Os novos docentes foram impedidos de entrar no edifício e as aulas continuaram como até então.

Como a verba do ministério fora cortada, os pais pagaram os seus custos e a escola passou a privada. Mas, como o programa oficial não era cumprido, o ministério proibiu a mudança e tirou a licença de ensino à escola.

Numa entrevista à televisão, o presidente da câmara declarou que, tal como em Barrancos, o que estava em causa era uma tradição local. Se Barrancos tinha direito a touros de morte nas festas, também Trancão tinha direito a que a sua escola ensinasse. É que, como explicou, em Trancão, havia uma velha tradição, segundo a qual os alunos iam para a escola para aprender. Em Trancão, havia exames e quem não sabia chumbava. Eram velhas tradições, de tempos imemoriais, que as gentes da vila gostavam de seguir. Nos últimos anos, por imposição do ministério, as coisas tinham sido diferentes, mas agora tudo voltara ao normal.

O caso de Trancão deu grande polémica a nível nacional. Debates de comentadores e políticos, petições à Assembleia, manifestações de apoio e de ataque. A movimentação era imensa. O País estava dividido. Faziam-se colectas a nível nacional, para ajudar a pagar as coimas elevadas com que o ministério ameaçara as autoridades escolares. Os diplomas passados pela escola de Trancão foram declarados nulos, mas várias empresas da região anunciaram que os aceitariam e algumas universidades, invocando a autonomia, imitaram-nas.

Quando, em Junho de 2003, a escola de Trancão fez os seus primeiros exames proibidos, a comunicação social caiu literalmente sobre a pacata vila beirã.

Dois dias antes dos testes, já as televisões transmitiam reportagens em directo da praça principal. Os alunos dirigiam-se para a escola pelo meio de massas compactas de populares e jornalistas, com várias câmaras de televisão ao longo do percurso.

Nessa tarde, o senhor ministro da Educação fez uma comunicação ao País.

Declarou no seu discurso que o Estado era a única entidade que sabia o que se devia ensinar aos filhos dos portugueses. Os burocratas do ministério eram pedagogos geniais. O facto de mudarem continuamente os programas e os métodos de ensino era, aliás, uma prova da sua grande capacidade pedagógica. 

As pessoas não compreendiam o vasto alcance das experiências únicas que o ministério realizava nas escolas portuguesas.

O que se passava em Trancão, dizia o senhor ministro, era que os pais e os professores só pensavam no lucro. O problema da escola privada era esse: só pensa no lucro. O Estado não liga ao lucro (os impostos não são lucro e o ministério até tem um buraco orçamental) e os funcionários ainda menos (desde que lhes aumentem os salários seis por cento ao ano). Ao contrário dos pais e dos professores, a única preocupação do ministério é não o lucro, mas a educação das crianças. Por isso, o controlo do ministério sobre as escolas tem de aumentar. O ministério tem de controlar toda a educação. O ministro terminou a sua comunicação informando o País do grande projecto em que trabalhava havia anos: a cadeira de "Educação Intestinal", que revolucionaria os hábitos digestivos dos portugueses.

Durante o Verão de 2003, as coisas pioraram. Várias escolas, um pouco por todo o País, anunciaram que iam imitar Trancão e passar a ensinar os alunos.

O ministério reagiu criando a "Guarda Educativa", para defender a pureza da pedagogia. Em resposta, algumas escolas decidiram passar à clandestinidade.

Em nome da educação portuguesa. 

[anterior]