Diário de Notícias
- 27 Out 07
Uma certa utopia de escola
pública
João Miranda
Foram divulgados os rankings das
escolas relativos ao ano lectivo de 2006/2007.
Permanecem os mesmos fenómenos de sempre. As escolas
de topo do ranking são escolas privadas que
conseguem sobreviver apesar de competirem com
escolas públicas que não cobram propinas. As médias
das notas que resultam da avaliação interna são
superiores às médias obtidas em exame nacional. Esta
discrepância é maior nas escolas com piores
resultados nos exames nacionais, o que indica que os
concursos de acesso ao ensino superior são viciados
por escolas que inflacionam as notas internas. Os
rankings continuam a indicar que as escolas do
litoral têm melhores médias que as escolas do
interior e que as escolas próximas de bairros ricos
têm melhores médias que as escolas próximas de
bairros pobres.
Estes resultados demonstram o
fracasso de uma certa utopia de escola pública.
Aquela utopia que nos diz que a escola pública
acabará com as diferenças sociais e produzirá
igualdade de resultados entre pessoas de meios
sociais diferentes. São os próprios defensores dessa
utopia que, perante os rankings, o reconhecem. Como
os rankings mostram que as escolas mais bem
classificadas são escolas privadas, os defensores da
utopia da escola pública são forçados a alegar que
os resultados das escolas privadas se devem à origem
socioenonómica dos seus alunos. Dizem que o meio
socioeconómico influencia mais os resultados que a
qualidade da escola. Reconhecem, em última análise,
que, ao contrário do que diz a utopia, a escola
pública está muito longe de anular os efeitos do
meio socioeconómico.
Os defensores da escola pública
alegam ainda que as escolas privadas de topo têm
melhores resultados porque seleccionam os seus
alunos. Segundo eles, a escola pública é uma escola
que não discrimina ninguém. Ora, este é mais um
indicador de que o conceito de escola pública que
defendem é utópico. A melhor escola para um dado
aluno é aquela que tem, não apenas os melhores
professores, os melhores métodos e as melhores
instalações, mas também os melhores colegas. Nenhum
pai quer que o filho tenha colegas que perturbam o
ambiente escolar. As escolas melhores são aquelas
que seleccionam os seus alunos. As escolas da utopia
não podem fazer essa selecção e serão sempre
medíocres. São os pais, os professores e o próprio
Ministério da Educação os primeiros a recusar e a
conspirar contra a utopia. Os pais mais bem
informados tentam colocar os seus filhos nas escolas
com o melhor ambiente socioeconómico. A formação de
turmas de elite dentro das escolas públicas é uma
prática comum. As políticas do Ministério da
Educação levam os melhores professores para as
escolas das zonas economicamente mais favorecidas. A
utopia é irrealizável.