Público - 20 Out 07
O Tratado que se chamará de Lisboa
José Pacheco Pereira
Este tratado é uma solução de poder para que este
permaneça do lado do "motor" franco-alemão
O "fumo branco" papal que o PÚBLICO usou para
caracterizar o anúncio de um novo tratado europeu
que se chamará "de Lisboa" é uma imagem apropriada à
coisa. Cá fora, os fiéis e a Igreja esperaram o
"fumo branco", com a ansiedade do rebanho que pensa
que perdeu o seu pastor e, biblicamente, espera de
novo o conforto de ser pastoreada, de encontrar um
bom pastor, bons cães, boa tosquia, boa erva. Durão
Barroso ficou contente, José Sócrates ficou muito
contente, Sarkozy ficou contente, Merkel ficou muito
contente, a Bélgica ficou contente, o Luxemburgo
ficou contente, Bruxelas ficou tão contente que
chegou até Paris e Berlim num breve momento de abrir
as penas de pavão de "capital da Europa", em dezenas
de edifícios pela Europa fora, em Bruxelas, no
Luxemburgo, em Estrasburgo, nas "agências" europeias
da Grécia a Portugal, nos escritórios da burocracia
europeia, de Talinn a Nicósia todos ficaram muito
contentes, no Euronews ficaram muito contentes, nas
mil e uma actividades subsidiadas pela União reinou
o contentamento. O PÚBLICO está muito contente e
coloca-me na situação habitual de desmancha-prazeres
e temo que coloque a minha péssima fotografia ao
contrário, melhorando-a como efeito perverso da
Europa. Como na Europa, é ao contrário que se fica
direito.
O contentamento percebe-se nas suas várias
modalidades. Os genuínos europeístas, federalistas
na maioria dos casos, celebram mais uns passos (que
consideram mesmo assim tímidos) a favor de uns
Estados Unidos da Europa míticos, de uma nação
"europeia" assente nos bons costumes nos direitos
humanos, na cultura "humanista", no "modelo social
europeu", uma potência mundial "olimpiana" que
retirará aos EUA a hegemonia internacional por uma
mistura de apoio humanitário, diplomacia paciente e
exibição dos seus méritos multiculturais. Na
cerimónia de proclamação da falhada Constituição,
choraram ao ouvir o "Hino da Europa" e depois
enraiveceram-se com o desaforo francês e holandês.
Agora, com 90 por cento da sua Constituição fora do
risco de qualquer referendo, têm razões para estar
contentes.
Os europeístas tecnocráticos são outras variantes de
gente contente. Eles acreditam que a racionalidade
europeia é superior à das nações e tem uma certa
razão prática. Os burocratas, se deixados à Lei de
Parkinson, tratarão em primeiro lugar de si
próprios, tratarão de alargar a burocracia, mas em
seguida combaterão aquilo que acham ser a
"incompetência" dos políticos. Está tudo no Sim,
Senhor Primeiro-Ministro esse compêndio televisivo
da democracia real. Combaterão a política e essa
impureza para a dignidade do bom governo que são as
eleições e os votos. Eles produzirão milhares de
leis, regras, regulamentos, directivas, estudos,
pareceres, notas de orientação, produtos do puro
saber burocrático regulamentador, que, para além da
pequena pecha de implicarem sempre mais burocratas,
mais escritórios, mais "agências", são produtos
iluminados de um mundo perfeito onde os barcos têm
duplo casco, o silicone mamário é resistente, tudo é
biodegradável, as ovelhas têm transporte adequado,
os peixes estão protegidos dos pescadores, a carne,
as maçãs, o vinho, o queijo, estão isentos de todas
as doenças conhecidas, são inodoros, não têm sabor,
brilham em embalagens etiquetadas como deve ser, e
os trabalhadores devem ser muito bem tratados pelo
"modelo social europeu", menos os canalizadores
polacos. Centenas de Sir Humphreys no topo e
milhares de Bernards na hierarquia garantem esta
Europa. Há quem se converta a ela, exactamente para
servir de garantia para que não haja desvarios com a
moeda, com o défice, com o "monstro". Cavaco Silva
passou de eurocéptico a europeísta por esta via de
descrença nas capacidades endógenas de Portugal se
reformar e na esperança de que, se não vai de
dentro, vai de fora.
Depois, há contentamentos menos evidentes, menos
conhecidos e, acima de tudo, menos reconhecidos
porque politicamente inconvenientes para o discurso
mítico-heróico da Europa. São estes contentamentos
que mais nos deviam preocupar no caminho que este
tratado abre, na sequência, aliás, do processo
europeu que já levou à falhada Constituição e leva
agora à fuga aos referendos. Bem sei que, para os
portugueses, cujo único interesse nacional foi pôr
lá o nome de Lisboa, esta coisa de manifestar
interesses é não só um absurdo "nacionalismo", como
incomoda, porque há sempre alguém a quem os fundos
não abafam a voz, como acontece connosco. É por isso
que jornalistas e comentadores tratavam com enorme
desprezo os infames "interesses nacionais",
ridicularizados nos gémeos polacos, no deputado
italiano a mais, no cirílico do euro, etc., etc. Ao
mesmo tempo, evitavam a todo o custo analisar o
tratado como expressão de interesses nacionais muito
mais agressivos e eficazes como os da Alemanha e da
França. A seu tempo, vão admirar-se por verem que,
afinal, não é assim tão simples abafar as nações
numa supra-entidade nacional que tem hoje uma lógica
muito mais do interesse nacional que outra coisa.
O problema com este tratado é que ele não resolverá
nenhum dos problemas actuais da Europa e criará
alguns outros bem complicados. Basta
concentrarmo-nos naquela que é louvada como a
melhoria fundamental no funcionamento da Europa a
27, a substituição de uma regra implícita de
unanimidade por regras de maioria qualificada. Esta
por si só é uma mudança qualitativa que altera
radicalmente os fundamentos consensuais em que a
Europa de Monnet, Schumann e De Gasperi foi
construída. Eles percebiam, a partir da experiência
trágica da guerra, que uma "união" na Europa só era
possível se todos se sentissem iguais, nem que fosse
na possibilidade virtual de vetarem, e que isso
implicava um enorme esforço de consenso e, logo, de
"pequenos passos".
A obsessão gaullista, retomada por Chirac e Giscard,
de uma Europa superpotência competindo com os EUA,
conjugada à emancipação de uma Alemanha unificada
dos complexos da guerra, farta de pagar "reparações
de guerra" disfarçadas de financiamentos à União,
levou a uma condução europeia de fuga em frente. Não
resolve a PAC, não resolve a circulação de serviços,
mete-se em complicações na política externa e de
defesa, menospreza tudo o que no quadro dos tratados
anteriores era suficiente e permanecia por potenciar
e atira-se de cabeça para a engenharia política e
mandou os "pequenos passos" para as malvas da
história. Fez um alargamento apressado e pouco
preparado e depois, assustada pelos efeitos desse
alargamento na dissolução do seu próprio poder,
tentou retomar as condições de manutenção de um
núcleo duro e por isso precisava tanto deste tratado
"reformador". Mas nenhum tratado alterará uma Europa
que hoje se concentra numa França mais
proteccionista e numa Alemanha que já não precisa de
ninguém (ou seja, da França) para ter uma política
externa própria e quer uma Europa ao modelo dos seus
Länder.
Fora disso, só há ficções. Alguém pensa que uma
decisão da União que seja entendida como prejudicial
ao Reino Unido possa ser implementada por uma
maioria de países europeus contra o Reino Unido?
Tirem daí a ideia, porque, na prática, uma de três
coisas resultará: ou cai o Governo inglês que aceite
tal decisão sendo substituído por outro ainda mais
eurocéptico, ou há mais um opting out, ou o Reino
Unido sai da União, coisa aliás muito desejada pelos
europeístas. O mesmo se aplica em bom rigor à
França, Alemanha e Polónia. Ou seja o afã de criar
maior governabilidade por sistemas de maiorias e
minorias é uma receita para a prazo haver sempre
ganhadores e perdedores na Europa, que terão de
responder no seu país ao seu próprio eleitorado.
Isto enquanto a União Europeia não conseguir
substituir as eleições nacionais por eleições
europeias.
Este tratado destina-se apenas a encontrar uma
solução de poder para que este permaneça do lado do
"motor" franco-alemão, impedindo-o de se dissolver
no Leste, onde há demasiado americanismo,
liberalismo, instabilidade, questões nacionais por
resolver e fronteiras muito, muito incómodas, e num
Reino Unido com os mesmos pecados, menos a
instabilidade e as fronteiras. Claro que isto para
nós é "alta política", para nós basta-nos o "de
Lisboa" no nome, essa grande vitória nacional.
Historiador