Diário de Notícias
- 16 Out 07
O problema europeu da criminalidade juvenil
Editorial
A delinquência juvenil é um problema cada vez mais
grave em toda a Europa. O número de crimes
praticados por jovens até aos 17 anos, mas,
sobretudo, por miúdos abaixo dos 14, tornou-se uma
preocupação para as autoridades, que não têm forma
de lidar com o problema: inimputáveis perante a
justiça, estes delinquentes juvenis são detidos mas
fogem dias depois das casas de correcção,
regressando novamente à vida marginal, num ciclo
vicioso.
Em Espanha, a polícia vai criar uma brigada especial
para combater este género de criminalidade face aos
números do ano passado: mais de 94 mil adolescentes
espanhóis detidos. E tenciona seguir o modelo
adoptado em Inglaterra de responsabilizar os pais
pelos crimes dos filhos, obrigando-os a pagar os
danos causados. Em França estão também a adoptar-se
medidas drásticas depois dos distúrbios que jovens
imigrantes dos subúrbios de Paris causaram durante
semanas: Sarkozy - eleito, aliás, depois de prometer
resolver o problema -- quer aviões-espiões a
sobrevoar a capital gaulesa a baixa altitude. Em
Portugal os casos são diários -- assaltos,
carjacking, roubos por esticão -, mas ainda não
foram tomadas medidas específicas.
Para um problema comum, uma solução comum. A União
Europeia deveria reflectir numa legislação conjunta.
E há sempre o exemplo de Rudolpho Giuliani, o
ex-mayor de Nova Iorque, que criou a teoria da
"janela partida": punir o miúdo que parte um vidro,
para não se tornar um adulto assassino. Lá resultou
numa quebra significativa da criminalidade.
A guerra leva a extremos a conduta de todos os que,
combatentes ou não, se vêem envolvidos por ela. O
rasto de traumas, de memórias sofridas ou exaltantes,
de perdas irreparáveis, que ela deixa, prolonga-se
no tempo de vida de todos os que a viveram. O
caminho da reconciliação e do perdão mútuo entre
antigos inimigos é o mais duro de percorrer. Para
perdoar, é preciso enfrentar verdades amargas. As
que têm a ver com as barbaridades, que o nosso
próprio campo, seja ele qual for, acaba sempre por
cometer, justificadas no frémito da luta, cuja
memória nos vai corroendo por dentro. Para enfrentar
verdades incómodas é preciso conhecê-las, é
essencial inserir a acção de cada um no seu contexto
político, militar, cultural. Só assim se derrubam as
imagens a preto e branco de terroristas
sanguinários, todos, por um lado, e de colonizadores,
esclavagistas modernos, todos, por outro.
A série de programas Guerra (RTP1), de Joaquim
Furtado, vai por certo reavivar lembranças, abrir
feridas, causar surpresas, provocar apoios e
repúdios. Mas vai também ajudar a sarar as feridas
de centenas de milhares de espíritos atormentados
que precisam de perdoar. E perdoar-se.