Diário de Notícias
- 11 Out 07
A Chegada da
Morte
Maria José Nogueira Pinto
Com o fim das grandes escatologias, das perspectivas
colectivas de um final feliz, religiosas ou
científicas, como foi o caso do marxismo, os seres
humanos viraram-se para um individualismo feroz,
projectos próprios de felicidade e de futuro,
despidos de transcendência, valores ou referências.
Numa cultura caracterizada pelo valor máximo do
sucesso pessoal, da beleza e da perfeição, o
sofrimento e a morte, a percepção do outro e a
referência da dignidade humana foram-se perdendo.
Dizia-se que começávamos a morrer no dia em que
nascíamos. Hoje, esta afirmação parece uma
indelicadeza desnecessária. O mito dos recursos
inesgotáveis da ciência e da tecnologia criou a
convicção de ser possível eliminar todo o sofrimento
e adiar indefinidamente a morte. Estas expectativas
esbarram inevitavelmente com aquilo que é e será
sempre a condição humana: uma condição forte e
fraca, gloriosa e pungente, perfeita e imperfeita,
criadora e refém, presa das vicissitudes da
felicidade e do sofrimento. Mas finita, em qualquer
circunstância.
O fim da vida, o tempo que precede uma morte
anunciada, o último trecho do caminho, é um tempo de
enorme perplexidade, em que tudo à nossa roda é
posto bruscamente em causa. O sofrimento daquele
doente terminal, criança, jovem, adulto, idoso, que
devíamos partilhar numa total intimidade com ele,
torna-se insustentável para nós. Compaixão? Não.
Medo, incapacidade, cobardia. A compaixão só se
sobrepõe quando procedemos ao exercício
dificilíssimo de nos vermos no outro e, assim, fazer
com ele, e como ele, essa derradeira caminhada.
Foi por tudo isto que nasceram os cuidados
paliativos. Cuidados de Saúde que não se destinam a
curar mas a retirar todo o sofrimento e incomodidade
aos doentes terminais. Cuidados familiares, porque
os que acompanham o doente também precisam de
orientação, apoio para um luto que se vai fazendo.
Cuidados indispensáveis a um novo conceito de morrer
em casa, em vez de morrer só e perdido num hospital.
São também o tributo do "estado da arte" ao respeito
pela dignidade da vida humana, ainda na sua fase
final, mesmo quando, de modo simplista e egoísta,
alguns sugerem que já não vale a pena fazer mais
nada.
Em saúde, qualquer direito que se crie é, por
definição, universal. Esses direitos vão-se criando
sempre que as necessidades encontram resposta na
ciência. Se a resposta existe, quem dela necessita
adquire o direito aos cuidados correspondentes.
Sabemos que não é fácil conjugar o aumento das
necessidades e a escassez de recursos pelo que se
espera que os decisores saibam estabelecer as
prioridades. Em Portugal, milhares de doentes e
famílias que precisam de cuidados paliativos, que
têm direito a aceder a esses cuidados, não obtêm
resposta. Corremos o risco da chamada "morte a duas
velocidades". Onde exista uma cultura paliativa que
difunda um saber- -fazer e um saber-ser haverá
condições para um fim de vida digno e sereno. Onde
tal não aconteça (e são muitos os casos...) estamos
a substituir a possibilidade concreta de aliviar o
sofrimento e dar serenidade, por um desesperado e
solitário pedido de morte. A desigualdade de acesso
aos cuidados paliativos é, por isso, inadmissível.
Em 2006 foram estabelecidos objectivos e criadas
metas e expectativas quanto à rede de paliativos. A
concretização ficou muito aquém. Numa matéria que
não se compadece com atrasos, e tão pouco com menos
exigência de qualidade, que deve ser protegida de
tentações experimentalistas e fugir de demagogia
política, o desafio que se coloca ao Ministério da
Saúde vai além de passar de 20 camas para 85 camas.
"Quadruplicar" é um bom título, mas 85 camas num
país onde pelo menos seis mil pessoas precisam
destes cuidados, onde o apoio no domicílio se torna
urgente, onde a rede não cresce por falta de
acordos, onde os profissionais de saúde precisam e
reclamam formação, um título serve para pouco.
O desafio é enorme. Quer pelos meios que envolve
quer pelas decisões políticas a que obriga. É mais
um exemplo do chamado dilema da escolha, tão
frequente em Saúde. O desafio é que em Portugal,
país da UE, neste século XXI, não exista, em breve,
um único lugar onde se possa reclamar a morte,
porque não se suporta mais sofrer. Um desafio
colectivo e eminentemente civilizacional.