Diário de Notícias - 27 Out 06
As contas da
democracia
Maria José
Nogueira Pinto
O financiamento da política em geral, e dos partidos
em particular, constitui um dos aspectos mais
tristes da democracia.
No princípio, se bem se lembram, havia militância. A
contestação, tal como a festa, fazia-se na rua e era
feita pelos cidadãos, então mobilizados e
mobilizáveis por causas, pessoas e siglas, julgo que
por esta ordem. Era o tempo dos desfiles
multitudinários, dos grandes comícios, das campanhas
através do Portugal profundo, das sessões de
esclarecimento nos cineteatros da província. Era o
tempo dos cânticos, das bandeiras e das palavras de
ordem que se cantavam, se agitavam e se gritavam
numa generalizada percepção da importância histórica
de cada acto, de cada dia.
A televisão era a preto e branco, os debates duravam
horas, ninguém exigia que um conceito, uma teoria,
um pensamento fosse debitado em 55 segundos, os
pivots davam tempo, talvez porque, também eles,
achavam que se estava a fazer História.
Não sei ao certo quando tudo se transformou. Quando
a militância se foi diluindo numa razoável dúvida
sobre a utilidade das coisas, se entrou numa espécie
de gestão política corrente, se proclamou a agonia
das ideologias. E, sobretudo, quando os partidos
perderam o poder de convocatória e puseram em causa
a sua própria função representativa.
Recordo sim um tempo de crescente "sofisticação" das
campanhas, da invasão do marketing político,
da importância da imagem, de um novo léxico tal como
"ser mediático", "ser ministeriável", "ser figura
pública", a associação mental de político a cargos e
benesses, o sacrifício da substância à forma, a
correcção política do discurso, o esvaziamento das
causas, o entorpecimento das ideias. Foi o início do
triunfo do efémero sobre as causas e as bandeiras,
substituídas pela "agenda política", uma espécie de
checklist da governação.
Foi então que a política se tornou caríssima. Uma
campanha eleitoral não prescinde, hoje em dia, de um
staff altamente qualificado em venda de
produtos e subprodutos partidários. Esse staff
exige meios "à americana" que vão desde uma panóplia
de material poluente de propaganda, até grandes
jantaradas, transporte de "apoiantes", brindes
caríssimos para distribuir a esmo, viaturas para as
caravanas, várias séries de cartazes, e artistas
pagos a peso de ouro para atrair os eleitores e os
concentrar para a imagem televisiva. Figura
determinante neste novo modelo é, naturalmente,
aquela que pega no móvel e fala com os jornalistas.
Quem paga esta factura? Eis a questão. Sempre
defendi que se a democracia é um valor, integrando o
conceito de interesse público, deve ser paga pelos
nossos impostos. O enquadramento legal foi sofrendo
alterações e o legislador procurou ajustá-lo a esta
nova realidade e aos riscos que dela decorrem:
muito, mas mesmo muito dinheiro a rolar, de
proveniência e destino não identificável. Em
Portugal persiste a ideia simplista de que a mera
alteração legislativa modifica o valor ou desvalor
ético, social e político dos comportamentos. Mas não
é assim. Não são as coimas ou as multas que, só por
si, alteram um modus vivendi interiorizado
como justificável e justificado.
Digo isto porque os sinais exteriores de riqueza
eleitoral são os mais evidentes, os que todos podem
ver e avaliar. Mas nunca são referidos, nunca
suscitam dúvida ou reparo. Um pacto de silêncio cai
sobre esta constatação. Talvez porque se pense que
tem de ser mesmo assim. Isto é, que tudo se resolve
conjugando uma lei que proíbe e uma prática que
transgride. Justificando-se a lei porque na sua
proibição nos tranquiliza e a prática porque o
estado da arte assim o requer.
Em muitos países os cidadãos não fogem ao fisco,
porque a cultura dominante censura veementemente tal
comportamento. Não são só as pesadas sanções que os
desencorajam mas o juízo social negativo, cujas
consequências são sentidas como mais prejudiciais.
Também em Portugal, e nesta concreta matéria do
financiamento dos partidos, valia a pena gerar
censura social. Mas para isso é necessário sentir
pena desta política a soldo. E que cada cidadão,
cada eleitor, cada português tivesse auto-estima
para saber que merece mais e melhor.