Diário de Notícias - 27 Out 06
O nosso lugar no
mundo
Jacinto Lucas
Pires
O título no The New York Times dizia: "Língua
negligenciada é finalmente colocada num pedestal."
Por baixo, o texto informava da existência de um
idioma que mais de 230 milhões de pessoas têm como
língua-mãe; uma língua mais falada do que "o
francês, o alemão, o italiano ou o japonês", mas em
relação à qual o mundo tende a fazer "vista grossa"
(tradução livre de overlooked:
aportuguesemos!).
"Língua negligenciada?" 230 milhões de pessoas?
Alguém adivinha?
Sim, pois: o português.
O jornal referia ainda a relação estranhamente
difícil entre Portugal e o Brasil, lembrava alguns
esforços da Comunidade de Países de Língua
Portuguesa e destacava a entrada, recente e
significativa, de Timor- -Leste para essa comunidade
de Estados que têm a língua de Camões, Vieira,
Pessoa, Rosa e Drummond como língua oficial. Tudo
isto, a pretexto da abertura do Museu da Língua
Portuguesa em São Paulo - ao que parece, o museu
mais visitado do Brasil por estes dias.
O termo "pedestal", do título da notícia, é
obviamente excessivo, pois não será nunca um museu a
resolver o défice de visibilidade da língua
portuguesa. Mas trata-se, sem dúvida, de um bom
sinal. Sinal de que, pelo menos, já não se está de
braços cruzados a ver os outros passar, à espera do
dia de São Nunca, e que a ideia neste domínio é
agora jogar ao ataque.
A famosa questão da "língua comum que divide" - à
qual, nessa notícia do The New York Times, a
ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima,
respondia, aliás, de modo adequado, desdramatizando
e deixando uma nota de optimismo - deve ser
enfrentada sem hesitações e com passos concretos. O
que importa não é tanto saber se usamos "fatos" ou
"paletós", ou se as telenovelas merecem ou
desmerecem a língua do Poeta. O que importa é criar
condições para uma relação mais estreita entre os
diferentes universos da lusofonia e encontrar as
formas óptimas de defesa e afirmação da língua
portuguesa nos vários palcos internacionais.
A língua, mais do que um simples instrumento, é o
lugar onde somos. A nossa casa - em São Paulo,
Lisboa, Maputo, Luanda, Praia, Bissau, São Tomé,
Díli e em toda a parte onde há gente a falar
português. Somos por todo o mundo. Talvez só falte
estarmos um pouco mais no mundo.