Público - 25 Out 06
Que simplex...
Joaquim Fidalgo Crer para Ver
Se, hoje em dia, tudo ou quase tudo se pode fazer
via Internet - ler livros, ouvir músicas, ver
filmes, jogar a isto ou àquilo, conversar com os
amigos, despachar o correio, comprar e vender,
rezar, confessar-se, namorar, fazer sexo, casar,
divorciar, pagar impostos, receber facturas, eu sei
lá... -, por que motivo não se há-de também lá fazer
um partido político? Nem sei como ninguém se tinha
ainda lembrado disso antes. Lembrou-se agora um
holandês. E lá nasceu o "Internet Party of
Netherlands", uma organização que não tem nada de
material (nem sede, nem programa, nem sócios, nem
reuniões, nem cartões, nem quotas) e que começa e
acaba na Net.
"É a democracia directa na sua mais directa forma",
diz a notícia que li sobre o assunto. "É o referendo
contínuo", razão que leva o seu criador, Arno Haye,
a proclamar que não há partido mais democrático que
este. Qualquer pessoa pode entrar, qualquer pessoa
pode sugerir um tema para debate, qualquer pessoa
com ligação à "rede" pode dar os seus palpites e, no
fim, participar na votação. E é assim que, em cada
momento, o "Partido Internet" vai construindo o seu,
digamos, programa: sobre cada assunto discutido e
votado por quem queira, toma a posição
correspondente à maioria das opiniões manifestadas e
está feito. "Estamos a dar às pessoas a
possibilidade de dizerem o que têm a dizer sobre os
assuntos, em vez de só ouvirem os políticos a falar
deles", explica Arno.
A coisa tem a sua graça, não tem? Desde logo, toda a
gente pode falar - embora não se saiba se toda a
gente que fala é ouvida. Mas, quando se vai a uma
reunião partidária, a um comício ou a um congresso,
também há muita gente volta e meia a falar para as
paredes e muita outra a ler o jornal ou a praticar
Sudoku durante os discursos. De resto, uma das
vantagens deste partido é que não dá trabalho,
precisamente, em termos de reuniões, comícios,
congressos e que tais: não é preciso ir. Nem há
aonde ir... E muito menos tem de se andar por aí a
colar cartazes nas campanhas, a participar em
manifestações, a distribuir lapiseiras e sacos de
plástico nas feiras, a comer lombo assado em
jantares de angariação de fundos, nada. É só estar
em casa, ligar o computador às horas em que apeteça
e participar, discutir, votar. Fazer política, pois.
Só não se percebe bem o que acontecerá se este
partido for para o governo - que é o que os partidos
políticos costumam querer, para poderem pôr em
prática as suas teorias. Admitindo que se resolve
também por via electrónica toda a questão das
eleições, como se vai depois governar o país?... A
partir do computador?... Confesso que estou curioso
com este processo de "desmaterialização" da política
levado às suas últimas consequências. Uma vantagem
tem, claramente, para o vulgar cidadão: se o governo
está apenas na Net, se é virtual, fica tudo mais
facilitado quando estivermos cheios dele e o
quisermos mandar embora. É só carregar na tecla
"delete" e ele, assim como apareceu, desaparece.
Haverá algo de mais "simplex"?... Jornalista