Público - 22 Out 06
Sem fim à vista
RETRATO DA SEMANA ANTÓNIO BARRETO
Tudo parece recomeçar nesta miserável educação que é
a nossa. Tudo, quer dizer, a luta estéril, a
instabilidade e a desordem. São os protestos em
quase todas as escolas do país contra as alterações
na carreira docente e contra os novos processos de
avaliação e promoção de docentes. É a greve de
professores, "pela dignidade profissional". Foi uma,
a primeira, das maiores manifestações dos últimos
anos, "contra o autismo da ministra e o economicismo
do Governo". É o começo da agitação dos estudantes
"em luta contra as propinas e por um ensino de
qualidade". São incalculáveis os prejuízos sociais,
familiares e económicos desta situação larvar. Mas
pode ter-se uma ideia do que são os seus resultados
pedagógicos e culturais: basta olhar para as
classificações dos alunos e dos estudantes! E nem é
preciso comparar com os países estrangeiros: a
mediocridade é, em termos absolutos, flagrante!
O que é verdade para tudo da vida e da sociedade,
também o é para a educação: "as coisas" nunca ficam
feitas para sempre. Há eternamente luta e movimento,
tradição e inovação, conflito e consolidação. Mas
também é certo que, periodicamente, é importante ter
algo de adquirido, de estável, que permita o
progresso e que seja o quadro de referência de uma
geração. Em Portugal, na educação, nada existe que
se pareça com isso. Está sempre tudo em causa. O que
se traduz num ensino de má qualidade e em estudantes
ou profissionais muito mal preparados. O que implica
um colossal desperdício de pessoas e de recursos. O
que provoca um permanente abaixamento, ou pelo menos
uma não elevação cultural da população. E o que,
finalmente, contribui de modo muito eficaz para o
aumento da desigualdade social.
Apesar deste estado permanente de perturbação, a
continuidade no Ministério e no sistema é aflitiva.
Reparem-se nas medidas e nas reformas das últimas
décadas: muda tudo quanto é acessório, mantém-se
tudo quanto é essencial. Há hoje dez a vinte vezes
mais alunos, estudantes e docentes do que há vinte
ou trinta anos; há quinze vezes mais escolas
superiores, cinquenta vezes mais cursos, quase vinte
vezes mais docentes universitários; e há muito mais
despesa pública e privada com a educação; mas o
essencial, a concepção e o modelo de organização,
mantém-se. As grandes reformas, as intermináveis
reformas, são remendos.
Desta situação, o retrato exemplar é o do
Ministério. A começar pela sucessão vertiginosa de
responsáveis. O número de ministros da Educação e
respectivos secretários de Estado atinge, nas
últimas décadas, valores impensáveis. É possível que
seja o ministério que conheceu mais inquilinos. Em
média, cada Ministro da Educação durou pouco mais de
um ano. Todos com ideias, todos especialistas e
quase todos com invenções. Nunca lhes faltou energia
reformadora. Quase todos mudaram de ideias depois de
terem saído do ministério...
Este Ministério, desde os tempos do Estado Novo até
aos actuais da democracia, com uma revolução de
permeio, nunca abdicou de alguns traços
fundamentais, defendidos pelos jacobinos, pelos
conservadores, pelos revolucionários e pelos
democratas. Por isso o ensino que temos sofre de
defeitos que por muitos foram e são considerados
virtudes. É unificado, integrado e centralizado.
Ora, enquanto não for tentada uma maneira diferente
de organizar a educação, não sairemos do clima de
instabilidade em que nos encontramos. É simplesmente
impossível gerir, de modo centralizado, milhares de
escolas, centenas de milhares de professores e
funcionários e mais de um milhão de alunos. Não é
razoável administrar, com este grau de centralismo,
uma tão vasta rede de pessoas, instalações e
equipamentos que consomem mais de sete mil milhões
de euros, entre seis a oito por cento do produto,
uma das mais altas taxas da Europa.
Maria de Lurdes Rodrigues, que admiro, fez muito bem
em, desde o início do seu mandato, se ter
preocupado, não com ideias vagas sobre a educação,
mas com a organização. Muito do que fez ou tem
tentado fazer é essencialmente tratar da organização
do sistema, dos poderes e competências dos seus
agentes e interessados, dos aspectos materiais e
funcionais. Tem razão. Sem alterar esses elementos
de base, nada poderia fazer a não ser discutir
tostões com funcionários, propinas com os
estudantes, preços com os editores e transportes com
os autarcas. Sem entrar no pormenor dos dispositivos
por ela delineados, merece aplauso, na generalidade,
o que quer fazer, por exemplo, com os horários de
abertura das escolas, as aulas de substituição, o
fecho das escolas com meia dúzia de alunos, a
obrigatoriedade de cumprimento de horário de
presença por parte dos docentes, a penalização das
faltas dos professores, o novo sistema de avaliação
de professores e as exigências para a promoção na
carreira. Fez bem em acabar com os destacamentos de
muitas centenas de professores para servirem de
funcionários e activistas dos sindicatos. Como fez
bem em criar contratos de pelo menos três anos para
fomentar a estabilidade do corpo docente. Nem tudo
tem sido bem, como por exemplo a avaliação de
professores pelos pais, o golpe de misericórdia na
filosofia no ensino secundário ou a repetição de
exames nas condições conhecidas. Mas, em grandes
linhas, a ministra merece apoio.
No entanto, tem-se a impressão de que, nos últimos
meses, Maria de Lurdes Rodrigues tem vindo a perder
força. Já perdeu o apoio de alguns barões
socialistas, assim como de autarcas de todos os
partidos. Começa a criar-se a noção de que não tem
uma estratégia, de que não sabe ainda onde quer
chegar. É verdade que tem diante de si o mais
temível dos adversários, os sindicatos de
professores. Mas parece não ter sabido fazer as
reformas com os professores e contra os sindicatos.
Eis que é feito difícil, mas sem isso nada
conseguirá. Está a conduzir todas as guerras ao
mesmo tempo, em todas as frentes, sem exércitos à
altura. Pior, está prisioneira da lógica do
Ministério e do sistema educativo. Parece continuar
a acreditar em que é possível gerir e administrar a
educação de modo integrado, unificado e
centralizado. Não pôs em prática a única metodologia
que permitiria fazer uma ruptura e começar nova
vida. Gradual, mas nova. Essa seria a de entregar
definitivamente o ensino básico e secundário às
comunidades locais (autarquias, pais, interesses e
professores). A de definir o cargo de director de
escola unipessoal, com a obrigação contratual de
prestar contas. A de transferir, para as autarquias
e as escolas, receitas, recursos e pessoal,
incluindo as competências de recrutar professores e
gerir orçamentos. A de entregar às faculdades
(seleccionadas para esse fim) a gestão pedagógica,
curricular e científica das disciplinas. E a de
manter no Ministério, infinitamente mais magro, as
funções primordiais de garantia de mobilidade
(incluindo a gestão do currículo nacional) e a de
fiscalização e inspecção.
O Ministério da Educação e os sindicatos de
professores são os maiores obstáculos e os mais
temíveis inimigos da educação. Coligam-se de vez em
quando e daí vem prejuízo para os estudantes e seus
pais. Guerreiam-se a maior parte do tempo e daí
resultam danos para os estudantes e seus pais.
Enquanto estes adversários não destroçarem, não
conheceremos progresso educativo e cultural.