Público - 16 Out 06
Sem desculpas nem "muletas"
Por Pedro Ribeiro
O Governo apresenta hoje a sua proposta para o
Orçamento do Estado de 2007. É um orçamento que terá
que reduzir o défice público de 4,6 para 3,7 por
cento do Produto Interno Bruto. E é um orçamento que
já não tem a desculpa da situação herdada dos
Governos anteriores ou da crise económica; nem
poderá
ter a "muleta" de mais aumentos dos impostos. Por
Pedro Ribeiro
É um ritual que se repete
anualmente em meados de Outubro. Daqui a algumas
horas a equipa do IMinistério das Finanças
desloca-se à Assembleia da República para entregar a
proposta para o Orçamento do Estado para 2007. A
grande meta está definida à partida: no próximo ano,
o défice orçamental não pode ser superior a 3,7 por
cento do Produto Interno Bruto (PIB).
O documento vai explicar como é que se chega lá.
Este é o segundo orçamento apresentado pelo
Executivo Sócrates (o terceiro, contando com o
rectificativo apresentado ainda em 2005) desde que
tomou posse, há ano e meio.
Desta vez, o Executivo já não pode argumentar com a
herança deixada por governos anteriores. Também não
se aplica a "desculpa" do estado débil da economia
portuguesa: Manuel Pinho, ministro da Economia,
disse na sexta-feira que "a crise acabou".
É também um orçamento que já não se pode apoiar na
"muleta" do aumento de impostos para reduzir o
défice. O ministro das Finanças, Fernando Teixeira
dos Santos, garantiu várias vezes que "os impostos
não vão aumentar" para lá das subidas já
pré-determinadas em 2005.
Desta vez, a redução do orçamento terá de ser pelo
lado da despesa. Teixeira dos Santos prometeu que
todos os ministérios (com excepção do da Ciência)
irão ter "cortes" nos seus orçamentos.
A meta de um défice que não ultrapasse os 3,7 por
cento foi definida no Programa de Estabilidade e
Crescimento (PEC) actualizado em Dezembro de 2005. O
Governo considera indispensável reequilibrar as
contas públicas para garantir a sustentabilidade do
crescimento económico.
Ora, segundo o PEC as receitas do Estado não deverão
crescer em termos reais praticamente nada em 2007. A
redução no défice de 0,9 pontos percentuais terá de
vir do lado da despesa.
Onde é que se vai cortar? No investimento público,
por exemplo. Segundo o reporte do procedimento de
défices excessivos enviado pelo Governo a Bruxelas
em Setembro, já este ano houve uma redução de 600
milhões de euros face ao que havia sido orçamentado
inicialmente.
No próximo ano, deverá haver um novo corte - na
última semana a imprensa especulou sobre valores na
ordem de uma redução de 10 a 20 por cento - que não
deverá, contudo, comprometer os "grandes projectos"
de investimento. Também haverá cortes nas despesas
de funcionamento de todos os ministérios - que
implicam o que o PEC descreve como a "moderação dos
custos com pessoal da administração pública".
Essa moderação passa por uma redução real dos
salários. A proposta do Governo para aumentos
salariais da função pública em 2007 é de 1,5 por
cento; a inflação, segundo o PEC, será de 2,2 por
cento.
Outras opções, como o congelamento de progressões
automáticas e medidas específicas na saúde e na
educação, vêm do ano passado mas continuarão a ter
efeitos em 2007. A reforma da Segurança Social, que
o Governo quer ter pronta a 1 de Janeiro, não se
traduzirá no imediato em grandes poupanças. As
medidas constantes do acordo assinado com os
parceiros sociais só progressivamente começarão a
produzir efeitos, designadamente com a introdução do
factor de sustentabilidade, que entra em conta com a
esperança de vida como elemento de cálculo da
pensão.
Para 2007 a previsão é de que os ganhos na Segurança
Social resultem essencialmente do combate à fraude e
da introdução de regras mais apertadas na concessão
do subsídio de desemprego. O aumento das
contribuições dos funcionários para o seu sistema de
saúde, a ADSE, fará, segundo o Sindicato dos Quadros
Técnicos do Estado (STE), somar 50 milhões de euros
aos 100 milhões que já pagam, verba idêntica à que
os cofres públicos deverão arrecadar com as
contribuições dos aposentados do Estado, até aqui
isentos, para o mesmo sistema de saúde: outros 50
milhões de euros.
O Governo espera ainda uma "ajuda" do PIB. O PEC
prevê um crescimento do PIB português de 1,1 por
cento este ano e 1,8 por cento em 2007. Mas o
ministro das Finanças admitiu já que esses valores
poderão ser revisto em alta no orçamento.
As metas orçamentais são calculadas como rácios do
PIB. Quanto maior for o produto, mais margem tem o
Governo para aumentar a despesa.
Mas o crescimento da economia não é importante
apenas para "ajudar" à redução do défice. A redução
do défice é que, espera-se, irá ajudar a mais
crescimento económico. E esse será o verdadeiro
teste deste orçamento - avaliar se a economia do
país melhora ou não em 2007. com J.M.R.