Público - 15 Out 06
Suspensão de julgamentos por aborto "é uma
hipocrisia", diz José Sócrates
Maria José Oliveira
Secretário-geral do PS reafirma a sua participação
activa na campanha pelo "sim" no referendo
à despenalização do aborto, embora não tenha "a
certeza da vitória"
José Sócrates respondeu ontem àqueles que, nas
bancadas dos partidos de direita, mas também no
grupo parlamentar do PS, têm vindo a defender a
suspensão provisória dos processos penais relativos
a crimes de aborto, mantendo a actual lei. "É
chocante a forma como abordam a questão. Não têm
coragem e revelam um notável oportunismo. Com medo
de perder [o referendo], dizem que arranjam formas
processuais para que as mulheres não sejam
perseguidas nem presas. É uma hipocrisia", frisou o
secretário-geral do PS, durante um encontro
promovido pelo Departamento Nacional das Mulheres
Socialistas (DNMS), na sede nacional do partido, em
Lisboa.
Foi a primeira vez que o líder socialista falou
sobre aquela proposta, defendida, na televisão, por
Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas, e partilhada
pela deputada do PSD Zita Seabra e por três
parlamentares eleitas pelo PS: Matilde Sousa Franco,
Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda. Para
Sócrates, esta tomada de posição resume-se a uma
frase: "Concordar discordando e discordar
concordando."
O combate que o PS se prepara para travar na
campanha pelo "sim" no referendo à despenalização do
aborto foi enaltecido por Sócrates - "era o que mais
faltava se o PS não se envolvesse numa campanha tão
importante", disse -, mas o secretário-geral dos
socialistas mostrou-se cauteloso quanto aos
resultados da consulta popular: reafirmou a sua
participação activa na campanha, mas "não com a
certeza da vitória". "Mas com a certeza de que
merecemos esta vitória", acrescentou.
Anunciando os argumentos que serão utilizados na
campanha, Sócrates explicou os dois principais
objectivos da despenalização da interrupção
voluntária da gravidez, considerando, antes disso,
que a proposta do PS configura um "equilíbrio entre
as convicções pessoais e a liberdade".
Em primeiro lugar, o líder do PS referiu que "o
primeiro objectivo da lei é não ameaçar com penas de
prisão as mulheres que fazem um aborto até às dez
semanas de gravidez". Depois, o primeiro-ministro
aludiu à "chaga" do aborto clandestino: "É preciso
combater a chaga do aborto clandestino, permitindo
às mulheres recorrer aos estabelecimentos do Serviço
Nacional de Saúde." E salientou: "Queremos que a
chaga do aborto clandestino deixe de ser a norma em
Portugal, porque isso é próprio de um país
atrasado."
No início da sua intervenção, Sócrates fez questão
de explicar, uma vez mais, a razão pela qual o PS
não recorreu à maioria parlamentar para alterar a
legislação, na Assembleia da República. "Não
quisemos utilizar a maioria absoluta para impor
aquilo que tínhamos perdido nas urnas", disse,
notando que o Governo optou por "recusar a via
fácil".