Público - 12 Out 06
Caminhos perigosos: cenário 2015
Medina Carreira
1.A crise do Estado é geral [...]. O regime fabricou
um Estado inviável, com o dinheiro que não tinha, ou
esperança de vir a ter, para cumprir promessas que
sabia de ciência certa pura fantasia ou puro cinismo
Vasco Pulido Valente
PÚBLICO, 6 de Outubro de 2006
É notória a gravidade da nossa crise financeira
pública. E as principais medidas anunciadas pelo
Governo para enfrentá-la - o PRACE e a reforma das
pensões - não chegarão em tempo útil, nem terão a
relevância financeira indispensável. "Economia" e
"facilidade" são os nomes dessa crise. Entre 1990 e
2005 o produto português cresceu 2,4 por cento em
média anual, real, enquanto a despesa corrente
primária subiu 5 por cento (1), as despesas sociais
6 por cento e as pensões 7 por cento. A uma economia
em queda prolongada (2) correspondeu a explosão das
despesas públicas. As consequências não poderiam ser
diversas das que foram. Agora, já com mais de uma
década de atraso, há que corrigir os efeitos deste
irrealismo político. Porque os governos não são hoje
capazes de provocar o crescimento económico, são
mais responsáveis pela moderação dos gastos.
2. Entre nós, não tem sido observado e entendido,
com suficiente prontidão e rigor, o modo como
evoluiu o último meio século europeu. Daí a notória
dificuldade para aceitar o quadro essencial e
premente das medidas de contenção dos gastos
públicos. Distinguimos, naquele tempo, três fases
bem distintas. Na primeira, até 1975, o Estado
social provocou um crescimento explosivo das
despesas públicas, sem sacrifícios fiscais, devido
às elevadíssimas taxas de crescimento económico dos
30 gloriosos anos. Na segunda, aberta pela crise do
petróleo de 1973, as economias desaceleraram e
instabilizaram-se, e a cobertura das despesas
sociais só foi possível através de sucessivos
agravamentos fiscais. Por fim, e em redor de 1990,
com a acentuação da debilidade das economias e a já
excessiva sobrecarga dos impostos, soou o alarme
europeu: uns países compreenderam-no e reformaram-se
(Suécia, Dinamarca e Países Baixos); outros não e
nada fizeram (França e Itália). A estes deparou-se o
inevitável: o Estado social vive do endividamento,
que é um caminho sem saída. Portugal, com três
décadas de atraso, repetiu o percurso da restante
Europa capitalista. A sua economia cresceu a 6 por
cento (1960-1975), a 4 por cento (1975-1990) e a 2,4
por cento (1990-2005). Correspondentemente, a sua
fiscalidade saltou de 21 por cento (1975) para 36
por cento do PIB (2005) (3). Como outros, o nosso
país ficou sem economia e sem margem de manobra
fiscal. E também se endivida.
3. Aos factores negativos que se acumularam na
economia, na demografia, nos impostos e na maturação
do sistema de protecção social veio acrescer o
esvaziamento dos poderes do Estado nacional: já não
há o intervencionismo económico eficaz dos anos
cinquenta e sessenta. A perda das políticas
monetária, cambial, alfandegária, orçamental e de
controlo da circulação de capitais, esgotou o Estado
social-democrata e "arquivou" o keynesianismo. Como
Galbraith disse, já nos anos setenta, "a época de
Keynes não era eterna". Finalmente, a liberalização
internacional do comércio entregou à exclusiva
capacidade competitiva das empresas locais o destino
e o ritmo de desenvolvimento de cada economia
nacional. No último século, os Estados nunca puderam
tão pouco como hoje. Nestas novas circunstâncias, os
que prometem mais "economia" e mais "emprego" não
passam de vendedores de ilusões.
4. Segue-se que vivemos numa atmosfera plena de
incertezas. O Programa de Estabilidade e Crescimento
(PEC) 2005-2009 respeita a um tempo muito curto, foi
elaborado sob a pressão da redução do défice e
alimenta-se demasiado dos impostos. Não enxerga
longe o nosso provável destino financeiro. E não
conheço quaisquer projecções do Governo ou de outros
que superem tais limitações. Face a este vazio,
antecipo aqui o estado das nossas finanças públicas
até 2015, com o grau de rigor que este tipo de
exercício consente. Para tanto, consideram-se: a
economia "provável", com um crescimento médio anual
de 2 por cento a 2,5 por cento (4); e a fiscalidade
"suportável", equivalente a 35-36 por cento do PIB.
Neste quadro hipotético de trabalho, a despesa
corrente primária só poderá crescer à taxa nominal e
anual de 3 por cento (2005-2010), depois de se ter
elevado à taxa de 8 por cento (1995-2005) (5). Com
um ritmo anual superior a 3 por cento, as despesas
do Estado já não serão fiscalmente financiáveis,
antes de 2015.
5. Depois de anos e anos de irrealismo financeiro, o
potencial de crescimento das despesas públicas
projectá-las-á para os 100 (2010) e os 140 mil
milhões de euros (mM) (2015) (6). Porém, nestes anos
e conforme as circunstâncias económicas e fiscais
aqui admitidas, as receitas públicas totais serão
apenas da ordem dos 80 (2010) e dos 100 mM (2015),
respectivamente (7). Teríamos então défices da ordem
dos 20 mM (2010) e dos 40 mM (2015) (11 por cento e
19 por cento do PIB), que seriam insuportáveis.
6. Sem a expectativa fundada de uma solução
económica e de uma maior margem de manobra fiscal
torna-se imperativa uma reforma profunda e urgente
das políticas de despesas públicas. Tarde ou cedo o
Estado enfrentará uma crise financeira séria, que os
valores deficitários das projecções deixam entrever.
Todas as reduções de gastos que forem conseguidas
são positivas, mas nenhuma solução será consistente
se desconhecer esta realidade: a despesa corrente
primária e o pessoal+prestações sociais
correspondem, respectivamente, a 90 por cento e a 72
por cento da despesa primária (8). O pessoal e as
prestações sociais cresceram, conjuntamente, à taxa
anual de 8 por cento (1995-2005). Deverão
desacelerar para 3 por cento, já em 2005-2010 (9).
7. A maior parte dos gastos com o pessoal e com as
prestações sociais integram as despesas sociais: dos
47 mM da despesa corrente primária, despendidos em
2005, 43 mM destinaram-se às despesas sociais (10).
Com um tão elevado peso relativo, não se conseguirá
"arrumar" as contas públicas sem desacelerar
fortemente os custos do pessoal e das prestações
sociais. Expresso de modo diverso: sem uma profunda
reforma do Estado social (despesas sociais), o
Estado português não terá sustentação financeira
dentro de poucos anos.
8. Fixado, bem, o quadro prioritário da intervenção,
o Governo pretende reduzir os gastos com o pessoal
através do PRACE. Um dos objectivos essenciais deste
consiste no abaixamento do seu peso.
Fundamentalmente, importaria que diminuísse do
equivalente a 15 por cento do PIB para 10-11 por
cento (11). Em todo o caso, trata-se de uma meta que
não será atingida, uma vez que: 1.º) Afastada a via
dos despedimentos, haverá apenas "disponíveis", com
o direito a cerca de 50 por cento dos vencimentos no
activo; 2.º) Por cada 100 mil funcionários
"disponibilizados", reduzir-se-iam as despesas com o
"pessoal" apenas em cerca de 6 por cento. O PRACE
não produzirá, por isso e em termos estritamente
financeiros, o resultado indispensável: seria então
preferível o congelamento dos salários actuais até
2010 (o peso do "pessoal" cairia para uns 12 por
cento do PIB).
9. No que respeita às pensões da Segurança Social e
da Caixa Geral de Aposentações estão previstas, ou
já adoptadas, diversas medidas. O respectivo alcance
financeiro global também será muito reduzido, em
atenção a que: 1.º) O seu peso na "despesa primária"
é apenas da ordem dos 20 por cento (14 em 65 mM, em
2005) (12); 2.º) Os efeitos plenos só serão
alcançados em 2015. As despesas sociais, além
daquelas pensões, abrangem também a educação, a
saúde, a ADSE e todas as demais prestações da
Segurança Social. Globalmente, estas últimas
equivalem a 45 por cento da despesa primária. Por
isso, só com a reconsideração de todas ou de grande
parte das despesas sociais (que equivalem a 66 por
cento da despesa primária) será obtido um efeito
significativo e suficiente: nunca e apenas com as
pensões. Por outro lado, a manutenção do regime da
repartição, tal como se pretende, irá limitar-se a
diferir novas crises e novas reformas: por cada uma,
haverá novas injustiças e um maior descrédito para o
sistema (13). Em suma: do PRACE e da reforma das
pensões não pode esperar-se uma solução para as
contas públicas em geral, nem para as pensões em
especial.
10. Não nos iludamos porque estamos numa situação em
que vigora a "tirania das circunstâncias": é
secundário se se é de direita ou de esquerda,
liberal ou conservador, representante da economia de
mercado ou do socialismo (14). O mais grave problema
que enfrentamos hoje é o do Estado: não se sustenta
com a economia que temos e outra é irrealizável em
tempo útil. Resta repensá-lo e reorganizá-lo. Os
números com que fundamento esta posição podem ser
discutidos, sempre com outros números. Mas, em
circunstâncias normais, não se afastarão muito da
realidade. E eles indiciam a existência de sérias
ameaças a que só os néscios e os irresponsáveis
podem ser indiferentes. Seja como for, ninguém
poderá dizer que a gravidade da situação escapou a
todos.
Notas
(1) Representava 33 por cento do PIB em 1995 e 40
por cento em 2005.
(2) Seis por cento de crescimento em 1960-1975; 4
por cento em 1975-1990; e 2,4 por cento em
1990-2005.
(3) Entre 1975 e 2005 a carga fiscal média da UE15
subiu 8 pontos (de 33 para 41 por cento do PIB),
enquanto em Portugal aumentou 15 pontos (OCDE).
(4) Admite-se um crescimento médio na UE de 2,3 por
cento/ano até 2020 e de 1,1 por cento entre 2020 e
2050 (cf. IFRI, Chronique d"un déclin annoncé, Avril
2003, cit. por LE BOUCHER, Economiquement incorrect,
GRASSET, 2005, pp. 63-64).
(5) Q. anexo, cols. 1, 3 e 6.
(6) Q., cols. 4 e 7.
(7) Q., cols. 5 e 8.
(8) Q., col. 2.
(9) Q., cols. 1, 2 e 4.
(10) Q. col. 2.
(11) É a média da UE15, em 2002, sendo: 7,9 por
cento na Alemanha; 10,3 por cento na Espanha; 8,4
por cento na Irlanda; 8,1 por cento no Luxemburgo;
9,9 por cento na Áustria; e 7,5 no Reino Unido (cf.
EUROSTAT).
(12) Q., col.2.
(13) Acerca do sistema misto, vd. Livro Branco da
Segurança Social, Janeiro de 1998, pp. 116 a 121.
Posição do autor, pp. 247 a 254.
(14) J. K. GALBRAITH, A Era da Incerteza, Morais
Editores, 1980, pp. 13 e 14.