Correio da Manhã online - 8 Out 06
Temos 10 filhos e vamos
adoptar o 11º
Jorge Godinho
Cristina, que é mãe a tempo
inteiro, auto-intitula-se engenheira de formação
humana. Américo, que é empresário, gere o tempo à
medida das necessidades da família. Juntos, tiveram
nove filhos biológicos, adoptaram mais um e já
planeiam adoptar outro. Nem por isso, porém, as
crianças esgotam as suas preocupações. A Humpar,
associação criada pelo casal para promover a
humanização do parto, avança já em Novembro para o
seu primeiro congresso internacional. História de um
casal inspirador, que a fé e a sensibilidade humana
investiram numa missão.
Nos hipermercados da Margem Sul do Tejo, todos os
conhecem. Movimentando-se frequentemente em bando,
os Torres são aquela família gigantesca que compra
sempre nas promoções e costuma levar, de uma só vez,
600 litros de leite, arcas inteiras de carne, ovos e
manteiga e arroz em quantidades industriais.
Criar dez filhos tem algo de missão, ainda para mais
nos dias que correm. E, porém, Américo e Cristina
Torres não querem ficar por aqui. Com nove filhos
biológicos e um adoptado, já decidiram: vão agora
adoptar uma 11.ª criança uma menina, para equilibrar
um ratio hoje situado em seis rapazes e quatro
raparigas. O processo está pronto para entregar na
Segurança Social e, se o casal pediu que os técnicos
o suspendessem durante algum tempo, foi apenas para
descansar alguns meses.
O nosso filho mais novo chama-se Joseph Benjamin
porque pensámos que seria o último. Entretanto,
mudámos de ideias. Na Segurança Social já toda a
gente nos conhece. Estão só à espera que digamos
Mandem o próximo!, que eles mandam, explica Américo.
Os nomes das crianças têm as suas idiossincrasias.
De todos, apenas esse último, Joseph Benjamim, foi
escolhido pelo seu significado.
Joseph significa Deus proverá e, como se sabe,
Benjamin era o filho mais novo de Jacob. Os outros
nomes, escolhemo-los sobretudo porque gostávamos da
fonética, justifica Cristina. Mosíah Alexandre (16
anos), Katiuska (14), Lara Lycia (12), Ariel (11),
Diego Giovanni (10), Adriann Néfi (7), Jaredynne
(6), Jared Dann (3), Eddie (10) e o referido Joseph
Benjamin (1) são os nomes e, na hora de validá-los,
Américo e Cristina Torres tiveram de recorrer à
origem venezuelana do pai da família, caso contrário
não conseguiriam fazer vingar alguns deles.
A circunstância de aparecer em penúltimo lugar da
lista, quando na verdade tem dez anos, identifica
Eddie como o filho não biológico (ou do coração,
como Américo e Cristina o tratam), chegado ao clã
entre o 8.º e o 9.º rebentos naturais. Ele próprio
escolheu o seu nome, aliás. Não queríamos que
ficasse com um nome português no meio de nove irmãos
todos com nomes estrangeiros. Isso assinalava-o de
imediato como adoptado. E, então, demos-lhe a
oportunidade de escolher, explica Cristina.
Não deixa de ser engraçado, uma criança poder
escolher o seu próprio nome... Só que foi um longo
processo. Desde o dia em que entrou na nossa casa
até ao momento em que a adopção foi concretizada,
com o novo nome ratificado, passaram-se dois anos.
Quando chegou, Eddie trazia atrasos físicos e
mentais. Deu-nos mais trabalho em dois anos do que
os outros filhos todos juntos ao longo de toda a
vida. Mas valeu a pena. Hoje é uma criança
absolutamente normal, conta Américo.
Membros da Associação das Famílias Numerosas,
Américo e Cristina Torres sublinham, porém, que a
sua principal motivação vem de outro lado: da
religião, da vida humana encarada como um bem, das
grandes famílias como um tributo à graça divina.
Somos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos
dos Últimos Dias, onde nos conhecemos. É preciso
dizer que, entre os 40 mil membros que há em
Portugal, somos provavelmente a família mais
numerosa. Conhecemos uma com nove filhos, que vive
em Lisboa.
A grande maioria, porém, raramente passa dos três
filhos. Em todo o caso, não podemos negar que há uma
grande influência da nossa relação com Deus na nossa
opção de vida. Aliás, quase todas as famílias
numerosas têm esse tipo de influência, diz Cristina.
Na verdade, de início queríamos apenas sete. Só que,
entretanto, fomos querendo mais. E, ao contrário da
maioria das pessoas, em vez de dizermos que
gostávamos de ter mais filhos, fazemo--los mesmo.
Aqui à volta, as casas são todas iguais e, no
entanto, as pessoas só têm uma criança, ou mesmo
nenhuma, com a presunção de que é preciso ter
condições especiais para ter mais filhos. Nós não
acreditamos nisso, acrescenta Américo.
O clã vive numa vivenda em Vale de Milhaços, junto a
Corroios, concelho do Seixal. O orçamento é gerido
com uma autêntica engenharia financeira, com
permanente atenção às promoções divulgadas pela
publicidade, incluindo televisão, rádio, jornais ou
simples newsletters e flyers de grandes superfícies.
Como empresário ligado à imobiliária e às
telecomunicações , Américo Torres tem oportunidade
de gerir o tempo à medida das necessidades da
família. Cristina, essa, é mãe a tempo inteiro.
Costuma dizer que é engenheira de formação humana.
Mas o facto é que as obrigações para com os filhos
estão longe de ser a única preocupação do casal.
Empenhados em concretizar uma escapadinha a dois
sempre que possível, Américo e Cristina decidiram
entretanto envolver-se também num projecto a dois
com vista ao benefício de terceiros. Foram eles quem
fundou a Humpar, Associação Portuguesa Pela
Humanização do Parto, que de resto realiza o seu
primeiro congresso internacional de 3 a 5 de
Novembro, no Instituto Jean Piaget (Almada), com a
presença de especialistas das mais variadas
latitudes. Conseguimos fazer um preço de apenas 80
euros por participante, explica Américo, que criou
entretanto um site (www.humpar.org) e dois números
de telefone (212538454 e 960084193) para colocar à
disposição dos interessados.
Queremos sobretudo que as pessoas tenham acesso a
partos mais humanizados, com mais sensibilidade, diz
Cristina. Foi isso também a adopção de Eddie:
sensibilidade humana e preocupação para com o outro,
muito mais do que fé.
Vimos o dossiê e a fotografia e pensámos durante
alguns dias. Já tínhamos oito filhos e, tratando-se
de uma criança que provavelmente traria problemas,
tínhamos de avaliar bem a situação. Mas, assim que o
vimos, não tivemos coragem de deixá-lo mais na
instituição onde estava. Saímos para dar um passeio
com ele e já não o deixámos dormir mais longe de
nós, relata Cristina. Os técnicos da Segurança
Social ficaram surpreendidos por o querermos.
Tirando Eddie, que chegou ao clã por via
administrativa, apenas um outro filho nasceu através
de cesariana todos os restantes foram resultado de
partos naturais, o último dos quais realizado em
casa. Nem um aborto atingiu o casal ao longo destas
duas décadas de vida em comum. E, se entretanto a
família parará de aumentar à 11.ª criança, é coisa
que já nenhum dos seus elementos se atreve e
garantir.
A nossa meta é a felicidade/ Juntos para a
eternidade, diz o hino da família, escrito em
conjunto por Cristina e Américo para a melodia de El
Toureador e exposto em lugar de destaque na sala de
estar de Vale de Milhaços. Quem pode duvidar deles?
´SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS´
Américo e Cristina Torres torcem o nariz ao
adjectivo mórmon. A Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias, de que fazem parte,
distingue-se da maioria das congregações cristãs
nomeadamente por isso: além da Bíblia, aceita como
escritura sagrada também o Livro de Mórmon. Aos
membros da igreja, porém, deve chamar-se apenas
Santos dos Últimos Dias.
Em Portugal são cerca de 40 mil, no mundo quase 13
milhões. Cem por cento cristãos, como se definem,
recusam a poligamia e a não observância da lei,
comuns entre algumas comunidades do Utah, EUA. É
igualmente em Salt Lake City, capital daquele
estado, que se concentra a estrutura dirigente
mundial da congregação.
FICHEIRO RNH Nº33
Nomes: Américo Pinto Torres e Ana Cristina Pinto
Torres
Idades:44 e 41 anos
Naturalidades: Cumaná (Venezuela) e Lisboa
Profissões: Empresário e mãe a tempo inteiro