Diário de Notícias
- 07 Out 06
O economicismo
como insulto
Francisco Sarsfield
Cabral
Criticando o
anunciado encerramento das fábricas da Johnson
Controls em Nelas e Portalegre, um dirigente
empresarial classificou-o de "medida economicista".
E um membro do CDS/PP de Portalegre disse que "os
problemas económicos não são razão nem fundamento
para que se tomem medidas deste género" (DN,
27-9-06).
Não tenho opinião fundamentada sobre aquela decisão
da Johnson. Naturalmente, lamento-a pelas suas
dramáticas consequências (desemprego em zonas do
interior onde escasseia a iniciativa empresarial). E
o encerramento suscita-me acrescida preocupação por
se tratar de unidades industriais já de alguma
sofisticação produtiva.
Mas vale a pena reparar nessa acusação de
economicismo. É que ela se repete entre nós, mas
quase sempre erra o alvo.
Na maioria dos casos, lamenta-se que o Estado não
ofereça este ou aquele serviço, não faça este ou
aquele investimento, não dê esta ou aquela ajuda,
apelidando de economicista o governante envolvido.
No fundo, pretende- -se que o Estado gaste, sem
olhar a custos.
Ora, ignorar custos seria fazer como se o dinheiro
do Estado não fosse o dinheiro de todos nós,
contribuintes. Ou como se os fundos públicos fossem
inesgotáveis, não carecendo de ser rateados em
função de certas prioridades.
Pelos vistos, a reacção contra este alegado
economicismo agora também parte de defensores da
economia de mercado. O que é curioso: dir-se-ia que
um gestor empresarial deve decidir, antes de mais,
em função da racionalidade económica privada.
Sem lucros, as empresas vão, ou deviam ir, à
falência. O lucro não é tudo, claro - mas condiciona
tudo. Só que, por cá, há quem pense de outra
maneira.
Uma fábrica ameaça fechar? Reclama-se, então,
mantê-la em funcionamento a qualquer preço, para
evitar problemas de desemprego. Aliás, é também esse
o verdadeiro motivo dos que não querem reduzir o
número de funcionários públicos: é preciso dar
emprego às pessoas, ponto final. Desde há décadas
que em Portugal se mantêm artificialmente a
funcionar empresas inviáveis e serviços públicos
inúteis. É um enorme desperdício de recursos, assim
impedidos de ser aplicados de maneira mais
produtiva.
Invocar, a torto e a direito, o economicismo desta
maneira poderá ser popular, mas é irrealista e
engana as pessoas. No mundo finito em que vivemos,
os meios são escassos e fazer umas coisas implica
sempre desistir de outras. Ignorar esta realidade
elementar leva ao desastre. Os que acusam os outros
de economicistas arrogam-se frequentemente, embora
de forma implícita, uma superioridade moral: eles
estão acima desse reino do egoísmo e do "vil metal".
Afinal, mais não fazem do que ignorar a realidade em
seu proveito. Alguém, que não eles, terá de pagar o
que eles reclamam.
Por isso, até na perspectiva da justiça social
importa ter a noção dos custos reais, ainda que não
visíveis a olho nu. Por exemplo, quando se julga que
os serviços gratuitos do Estado ficam "de borla"
para a colectividade. Por muito que se seja
insultado de economicista, a honestidade exige fazer
contas.
O economicismo a evitar é outra coisa. Trata-se
daquela concepção que reduz o mundo à mera dimensão
económica. Ignorar tal dimensão é uma fantasia
perigosa. Torná-la dominante ou até única é degradar
a condição humana.
O mercado é excelente mas não é tudo. Há valores
essenciais que estão fora da sua esfera. E o cálculo
económico não dá conta, longe disso, de toda a
realidade humana.
Depois, acentua-se a tendência para o poder
económico se sobrepor ao poder político. A
globalização reduz a força dos Estados e pouco se
tem avançado para a enquadrar politicamente à escala
internacional.
Assim se vai esvaziando de conteúdo a democracia. Os
gestores económicos respondem perante os seus
accionistas, não tendo de prestar contas aos
cidadãos. Se os empresários não encontram pela
frente poderes públicos fortes, predomina a vontade
de alguns sobre a vontade da maioria. É a grande
ameaça economicista do séc. XXI.
E temos, ainda, a mais antiga, mas sempre presente,
perversão tecnocrática aplicada ao campo económico:
apresentar sob uma capa pretensamente objectiva,
científica e ideologicamente neutra conclusões que,
afinal, são políticas.
É uma forma muito comum de dissimular opções
ideológicas.
Há, pois, um economicismo que vale a pena combater.
Mas não aquele de que mais se fala entre nós.