|
Público
- 07 Out 06
Um bom polícia?
Vasco Pulido Valente
Anteontem, no "5 de Outubro", o Presidente da
República resolveu falar de corrupção, um assunto,
em princípio, pouco original. Jorge Sampaio o ano
passado já fizera o mesmo. Mas, desta vez, Cavaco
não se ficou pelas piedosas generalidades do
costume. Com algum cuidado verbal, foi com franqueza
à essência da questão. Muita gente, disse ele,
chamada a "desempenhar cargos de relevo" nem sempre
corresponde a um "modelo ideal de civismo". "É
lamentável", disse ele, que o poder económico ou
pessoas com "influência" tenham um "acesso
privilegiado" ao poder político. Precisamente.
Cavaco está farto de saber, embora de quando em
quando não pareça, que a pequena corrupção
folclórica do futebol não conta ou conta pouco. O
mal está na cumplicidade instituída entre o Estado e
os "negócios", que ninguém acha criminosa e nunca
aparece nos jornais.
Quem observar a circulação de uma certa "classe" de
"facilitadores" (um nome de resto abertamente usado)
do Governo ou do partido para a banca ou para
empresas que dependem do Estado ou são parcialmente
do Estado e, em sentido contrário, do sector privado
ou semiprivado para o Governo, percebe como, em
grosso, as coisas funcionam. Não há segredo, nem
mistério no caso. E, melhor ainda, não há qualquer
ilegalidade visível. O ministro assina o despacho ou
fabrica o decreto não para favorecer o banco A, ou o
consórcio B ou a empresa C, mas porque de facto
pensa que o despacho ou decreto são a única maneira
de servir a pátria. Quem vai provar o contrário? E
quem se vai sobressaltar se por acaso esse
benemérito, devolvido à condição comum, receber do
Estado uma enorme encomenda no escritório (se, por
exemplo, for advogado) ou aparecer num conselho de
administração qualquer? Não é o homem competente?
Suponho que tudo isto, de uma maneira ou de outra,
sempre aconteceu. Acontece com certeza nas
democracias da "Europa": em Itália, claro, em
França, em Inglaterra, em Espanha e por aí fora. Só
que em Portugal esta espécie de corrupção chegou a
um grau inaceitável. Não existe vigilância (uma
verdadeira vigilância) nem do Estado, nem da
concorrência (que também aproveita), nem dos media
(que não investigam nada). A regra é a velha regra
nacional do "quem apanhou apanhou e quem não apanhou
que apanhasse". O país precisa de um polícia.
Esperemos que o Presidente da República seja um bom
polícia. |