Público
- 07 Out 06
A reforma da Segurança Social - 1 Anestesiar o
problema em vez de o resolver
António Bagão Félix
1.A reforma da Segurança Social (SS) é uma
inevitabilidade. No entanto, ainda há pouco anos,
era questionada por pessoas e forças que
prognosticavam ou o "paraíso no século XXI" ou o
"milagre das rosas". Algumas, agora no Governo,
parecem ter finalmente descoberto o "caminho
marítimo para a Índia...", depois de terem aplaudido
em 2001 a notável afirmação do então
primeiro-ministro Guterres de que "estaria garantida
a sustentabilidade da SS para os próximos 100 anos"!
Esta matéria, tecnicamente extensa e complexa, exige
estudo aprofundado e longo. Mas, de repente, na
praça da opinião pública surgiram muitos neófitos
que com duas ou três ideias apressadamente digeridas
têm soluções mágicas. Lembro-me, nestas alturas, de
José Rodrigues Miguéis, quando escreveu que em
Portugal há uma doença incurável (eu diria também
endémica): a de se ter opinião fácil sobre tudo...
O país, submergido em números, projecções, contas
sobre a SS, está baralhado. A discussão faz-se por
caminhos redutores. O importante é tão-só datar, com
precisão cirúrgica, o "funeral" da SS pública: 2036?
2050? 2070? Antes? Depois?
2. O Governo anunciou em Abril algumas medidas para
a SS. Nalguns casos aceitáveis, noutros não. De
algumas até se veio (e bem) a desistir, apesar da
pompa e circunstância do anúncio pelo
primeiro-ministro. Foi o caso do disparate que seria
a variação da taxa social única (TSU) em função de
se ter ou não ter filhos! Em termos de zapping
público, porém, ficou o anúncio e, por isso, a
reforma está desde logo habilmente manipulada e
influenciada pela mistura entre o que se disse, o
que se desistiu, o que resistiu, o que se apresentou
aos parceiros sociais nas entrelinhas, etc.
Na Concertação Social (CPCS), órgão não eleito pelos
votantes, e constituído por pessoas certamente
empenhadas e responsáveis, decide-se do futuro
relativo a milhões de portugueses. Claro que, lá
para a frente, as leis antes forjadas (e que ainda
ninguém conhece) irão ao Parlamento para aprovação
mecânica por parte da maioria.
Com um ar de auto-suficiência preocupante, o Governo
parece ter toda a paciência para muitas reuniões da
CPCS, com o ritual e a liturgia habituais, e
despreza arrogantemente opções diferentes e
respeitáveis de partidos e de pessoas que muito têm
pensado no assunto.
Erradamente até se argumenta que esta matéria diz só
respeito aos trabalhadores e patrões, como se da
antiga Previdência se tratasse. O espantoso é que na
dita concertação até se decidem aspectos da SS
(aberta a todos os cidadãos) que nada têm a ver com
o estrito carácter laboral dos temas. Por exemplo, a
aprovação do indexante para o aumento das prestações
sociais, as eventuais modificações das pensões de
sobrevivência ou prestações de deficiência, ou -
pasme-se - a passagem para o Orçamento do Eestado
financiado pelos impostos de todos os portugueses do
financiamento de algumas prestações (caso do abono
de família). Concertação onde, ironicamente e numa
matéria destas, não estão representados os sectores
financeiro, segurador e mutualista!
3.Num ponto desta discussão há algum consenso:
apostar exclusivamente no actual sistema público de
repartição não é solver o problema.
Já não sendo possível que a repartição beneficie dos
dois "doping" (o das chamadas "primeiras gerações" e
o das taxas de inflação elevadas), o que o Governo
propõe é adiar a ruptura da SS. Não se trata pois de
curar o mal, mas de o anestesiar durante mais alguns
anos.
O que se discute, tão-só, é a variável tempo, não a
(in)consistência estrutural do modelo. É uma visão
desesperançada. Dentro do sistema, não temos
soluções para as crianças e jovens de hoje.
Porque não mudando o sistema, mas apenas algumas das
suas variáveis ou parâmetros endógenos, o Governo
sabe que tudo é uma questão de tempo. Daqui a alguns
anos aí estará um qualquer ministro da SS a anunciar
novas e mais gravosas medidas.
Por isso, as medidas em curso são apenas uma via
decremental de direitos. Passámos da euforia do tudo
para todos para a decepção e o conformismo de cada
vez menos para alguns. Tudo se pode resumir assim:
custos certos e crescentes / benefícios incertos e
decrescentes.
A história repete-se, mas o preço aumenta e os
sacrifícios tornam-se incomportáveis.
4.Vamos por partes. O problema da Segurança Social
não é apenas financeiro, de contas como agora gostam
de dizer os que mudam de cálculos de três em três
anos. O problema é, antes de mais, político.
Primeiro, porque é um problema geracional e
transversal a toda a sociedade. Numa política global
e não de cacifos, o que deveríamos questionar é se
há ou não alternativas para atingir os mesmos fins
orçamentais.
O Governo diz que em 2050 terá poupado dois por
cento do PIB com as medidas que pensa tomar, mesmo
assim não evitando a ruptura e a utilização desde
2036 do Fundo de Estabilização.
Devo referir que o mapa oficial não refere 2 por
cento, mas sim 2,8 por cento. No entanto, devemos
retirar dois efeitos: 0,5 por cento que é a mera
transferência de encargos da SS para o OE, mantendo
a mesma despesa pública e 0,3 por cento que o
Governo atribui todos os anos a melhorias de
eficiência, como se de 2006 a 2050 (!) este factor
se pudesse repetir sempre. Curiosamente, e ao invés,
o Governo ignora nesta projecção o aumento da
despesa resultante do novo complemento solidário de
idosos, da escusada subida da taxa do subsídio de
doença, da anunciada melhoria das pensões de
sobrevivência, invalidez e deficiência, da maior
protecção da monoparentalidade, da protecção das
longas carreiras contributivas que, no seu conjunto,
das duas uma: ou significam real aumento da despesa
e devem ser estimados ou são apenas fantasias para
entreter o povo.
Ora, para este esforço há politicamente outras
opções que não deveriam ter sido descartadas na
discussão. Por exemplo, entre várias, estas duas:
reduzir até 2050 e nos mesmos 2 por cento as
despesas com pessoal no Estado (recordo que agora
são de quase 15 por cento do PIB quando na UE-15 são
de 10 por cento); ou optar pela supressão de
auto-estradas sem portagens cujos custos nos
próximos 25 anos ultrapassam os 11 mil milhões de
euros.
Mas não. Agora há uma obsessão com os reformados,
"primeiros responsáveis" pelos problemas das
finanças públicas... Vejamos: agravamento para o
dobro do IRS no resgate de PPR, sujeição total das
pensões a IRS, supressão de majorações na
comparticipação de medicamentos, redução efectiva
das novas pensões, introdução de um novo desconto
para a ADSE sobre os aposentados, etc. Para
governação socialista, não está mal... (continua)
Ex-ministro da Solidariedade Social
no Governo de Durão Barroso