|
Público
- 06 Out 06
O vácuo
Vasco Pulido Valente
A crise do Estado é geral. Não há nada que escape e
ninguém que não se queixe e se lamente. O país não
chegou aqui por acaso ou por distracção de um ou
dois governos. Foi precisa uma longa persistência no
erro e um desprezo perverso pelos problemas que se
iam acumulando, ou agravando, de ano para ano, como
se tudo estivesse bem e no bom caminho. Não existe
um partido, um político, um ministro, um autarca que
se possa considerar inocente do que se passa hoje. O
défice e a dívida são um sintoma, não são uma causa.
O regime fabricou um Estado inviável, com o dinheiro
que não tinha, ou esperança de vir a ter, para
cumprir promessas que sabia de ciência certa pura
fantasia ou puro cinismo. O momento do ajuste de
contas, no sentido metafórico e literal, devia ser,
fatalmente, duro.
Mas, coisa que de resto não surpreende, não trouxe
consigo uma nova consciência da realidade. Em grande
parte por culpa de Cavaco e Sócrates. Cavaco entrou
na campanha eleitoral com um tom épico e uma
segurança de salvador. Não se resignava ao atraso de
Portugal e parecia oferecer uma garantia e uma
estratégia. Bastaram seis meses para esse milagreiro
morrer. De Belém não saiu a sombra de uma ideia, o
mais vago indício de uma vontade. O Presidente só
fala em prudência, cuidado e discrição. Enquanto
Sócrates, já sem a força demagógica do princípio,
trata de cortar um vintém aqui e ali, sem um
propósito visível ou um método constante, como quem
gere uma falência certa. Tapa buracos, não toca no
essencial.
Abandonado a si mesmo, o país, coitado, anda
confuso. Não percebe o Governo, nem a gravidade da
situação. Protesta quando lhe metem à bruta a mão no
bolso ou, noutra veia, quer que se despeçam 200 mil
funcionários públicos. Da defesa intransigente e
cega do Estado-providência ao mais lunático
liberalismo, nada se discute com um módico de
inteligência e lógica. É como se a sociedade
portuguesa (a verdadeira, a material) no fundo não
contasse. No meio desta desordem, Cavaco e Sócrates
não acham necessário abrir a boca, excepto para
servir as banalidades do costume. O vácuo ideológico
e programático do poder, quase absoluto, impede
evidentemente qualquer reforma substancial e
durável. Se por muita sorte escaparmos desta,
ficamos prontos para a próxima. Embora espremido, e
dorido, Portugal não mudou. Uma óptima oportunidade
que se perdeu.
|