Diário de Notícias -
29
Out 05
Certificação dos manuais escolares já em Novembro
Ministério concluiu projecto de lei. Debate público vai envolver as cépticas editoras
Pedro Sousa Tavares
prazos.
Se o objectivo for de facto implementar o
sistema em 2006, resta pouco tempo para a
discussão
A comissão criada pelo Ministério da
Educação (ME) para definir um sistema de
avaliação e certificação dos manuais
escolares vai entregar, já "na
segunda-feira" à ministra Maria de Lurdes
Rodrigues, o "articulado de uma proposta de
lei" sobre esta matéria. O documento será
depois alvo de discussão com os parceiros
sociais, prevendo-se que "ainda no mês de
Novembro" seja apresentada uma versão final
à Assembleia da República para aprovação. A
garantia foi dada esta quinta-feira pelo
secretário de Estado adjunto, Jorge
Pedreira, durante a discussão parlamentar do
orçamento do ministério para 2005.
Maria de Lurdes Rodrigues disse aos
deputados que o principal objectivo do
sistema é a "promoção da qualidade", num
mercado onde, segundo o Governo, a oferta é
excessiva "Queremos um sistema que garanta
que nenhuma criança terá na mão um manual
menos bom", explicou. Maria de Lurdes
Rodrigues garantiu ainda que o ministério
vai reduzir os encargos para as famílias,
através da "acção social escolar", de uma
"maior durabilidade dos manuais" e da
"convenção de preços".
Recorde-se que a ministra tinha estabelecido
o mês de Outubro como prazo para a
apresentação das propostas desta comissão. O
projecto acaba por chegar às mãos de Maria
de Lurdes Rodrigues no último dia do mês, o
que - se o objectivo for de facto
implementar o sistema já em 2006 - deixa
pouca margem para a sua discussão.
"Os editores começam a produzir estes livros
em Janeiro", explicou ao DN Vasco Teixeira,
presidente da Porto Editora e da Associação
Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).
"Todos os anos, onze milhões de manuais
escolares são vendidos em Agosto e Setembro.
Mas esses milhões não podem ser produzidos
num mês. Qualquer atraso pode prejudicar o
sistema gravememente, fazendo com que não
haja livros suficientes."
O presidente da APEL confessou ainda ter
"muitas dúvidas" sobre a capacidade de o
ministério introduzir um sistema "que
funcione" sem prejuízo dos timings de
publicação. Sobretudo porque os antecedentes
não são animadores para as editoras "Há
enormes atrasos na homologação dos programas
de várias disciplinas do 12.º ano", acusou
(ver caixa). "Com esses atrasos, não
se podem fazer os manuais, com prejuízo dos
alunos."
"Não é necessário". Mas, para além da
exequibilidade do sistema de avaliação e
certificação, a APEL tem também muitas
dúvidas sobre a sua utilidade "Os dados que
nós reunimos - e que o ministério não
contestou porque são verdadeiros - mostram
que de facto há excesso de manuais até ao
quinto ano, mas a partir daí o sistema não é
necessário, porque não há livros a mais nem
livros maus. A senhora ministra diz que há
maus manuais, mas não diz quais são",
considerou. Vasco Teixeira acusou ainda o
Governo de ter negligenciado as editoras na
definição deste processo: "Estamos bastante
desiludidos, porque o ministério não
aproveitou o nosso know-how e a nossa
colaboração", lamentou.
Apesar de o ter tentado insistentemente, o
DN não conseguiu ouvir o ministério sobre
este tema.