Expresso - 22 Out 05

A armadilha social
Carlos Pereira da Silva

«O desequilíbrio financeiro da Segurança Social não é novo. Já era previsível desde meados da década de 90.»

EM 1984 universalizou-se o sistema de segurança social e introduziu-se a técnica de repartição como forma de financiamento das pensões de reforma. Contrariamente ao sistema das Caixas de Previdência, de base profissional, em que o valor da pensão resultava da capitalização colectiva das quotizações dos próprios, tendo em conta a carreira contributiva e as contribuições realizadas, neste sistema de base universal, as pensões são asseguradas pelos trabalhadores activos e respectivas contribuições, não havendo uma relação directa entre o montante das contribuições ao longo da carreira e o montante da pensão recebida.

No início do sistema distributivo («pay-as-you-go») a pensão era calculada com base numa taxa de formação anual de 2% (que subiu para 2,2% no período da grande inflação) e numa média salarial de 5 anos, posteriormente corrigida para 10 anos, e mais recentemente para toda a carreira, mantendo-se, todavia, para os trabalhadores inscritos até 31 de Dezembro de 2001, tendo já o prazo de garantia formado, a possibilidade de escolherem a melhor de três opções: cálculo de acordo com a fórmula antiga (melhores 10 dos últimos 15 anos), cálculo com base na fórmula nova (toda a carreira mais taxa de formação anual entre 2.3% e 2% consoante os múltiplos do salário mínimo), e proporção fórmula antiga e fórmula nova.

O desequilíbrio financeiro da Segurança Social não é novo. Já era previsível desde meados da década de 90, quando no Livro Branco da Segurança Social, e em estudos anteriores, se apresentaram cenários elucidativos acerca da dinâmica financeira do sistema. Houve, então, oportunidade de corrigir a aceleração do desequilíbrio, introduzindo mecanismos de contenção na taxa de substituição dos rendimentos do trabalho aquando da passagem à reforma. Como é óbvio, qualquer decisão na redução da generosidade do sistema teria de contemplar a transição consoante o montante da pensão final, a duração das carreiras contributivas e a distância em relação à idade legal da reforma. Porém, preferiu-se relativizar a dimensão do problema, dado que o desemprego era, na época, relativamente baixo - 4.5% da população activa - e os saldos da Segurança Social (Regime Contributivo) ainda eram positivos, embora cada vez mais reduzidos. Com o nível do desemprego actual, porém, os saldos negativos do sistema contributivo, financiado por contribuições da economia, podem tornar-se irreversíveis.

O Governo vai negociar com os parceiros sociais e ouvir a sociedade. Faz bem. Só que não consegue já desmontar a armadilha social que atingiu milhares de cidadãos a quem foi dito para não se preocuparem, que deixaram passar o tempo das decisões de poupança, e que agora vão ser confrontados com a diminuição dos seus rendimentos expectáveis, numa altura em que o desemprego grassa e o endividamento se tornou num garrote económico. Há pessoas a caminho da idade de reforma, com longas carreiras contributivas, que tendo contribuído para o regime das Caixas de Previdência estão hoje em risco de receber menos do que se tivessem continuado a contribuir para esse regime e as suas contribuições tivessem sido capitalizadas à taxa de juro das obrigações do Estado.

A sustentabilidade financeira do regime de pensões é uma questão vital para o futuro dos portugueses. Seria desejável que, antes das eleições, os governos anunciassem as medidas que, em sua opinião, contribuiriam para tal desiderato e que criassem as condições para o relançamento da poupança para a reforma.

Professor Catedrático do ISEG

 

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