Expresso - 26 de Outubro de 2002

O país rasca
 Henrique Monteiro

QUEM convida alguém para um jantar deve ter alguns cuidados prévios. Por exemplo, evitar que a comida servida contrarie hábitos ou preceitos de certos convidados, não deixar que a conversa se torne incómoda para os convivas e, sobretudo, nada fazer que fira os valores e as convicções dos presentes. Foi o que António Capucho, presidente da Câmara de Cascais, não fez quando se lembrou de convidar mais de 200 personalidades de topo do Partido Popular Europeu (que congrega as democracias-cristãs e os conservadores da UE) para um jantar no Casino Estoril. Abra-se, desde já, um parêntesis para afirmar que, sendo aquele um local respeitável, não se distingue muito de dezenas de outros que existem Europa fora, nem parece o sítio mais próprio para levar líderes cristãos e conservadores, mas enfim...

O pior foi o espectáculo: nus integrais, «topless», cenas a brincar com a Última Ceia, etc. etc., quadros que, evidentemente, são o pão nosso de uma noite num casino, mas que não encaixam bem em gente que, sendo em princípio respeitável, tem - e bem - o cuidado extremo de também o querer parecer. O resultado foi ridículo para Capucho, para o Concelho a que preside e para o país. No dia seguinte, o diário espanhol «El País» titulava «Escândalo no Estoril» e dava conta de declarações enjoadas e desgostosas dos convidados. Por exemplo, de Concepció Ferrer, da Unión Democrática de Catalunya, que resumiu desta forma o espectáculo: «Tudo era de mau gosto e de uma pobreza incrível».

Foi então que, aflito, Capucho afirmou que não conhecia o teor do espectáculo, o que já de si é suficientemente mau...

Sem pôr em causa a afirmação do presidente, é quase certo e sabido que se ele não conhecia este espectáculo concreto (o seu nome é «Egoísta», nome, também, de uma excelente publicação da responsabilidade do Estoril-Sol) conhece, sem dúvida, o estilo: plumas, mulheres seminuas, piadas, por vezes, de gosto duvidoso. Melhores ou piores, mais ou menos interessantes, são assim os espectáculos em todos os casinos do mundo.

A pergunta que se deve, pois, fazer a António Capucho é: que projecção do país e do seu concelho pretendia ele fazer junto daquelas mais de duas centenas de personalidades?

A resposta já está dada e, infelizmente, foi péssima. Porquê um casino e um espectáculo de casino, num país que tem tantas outras coisas para mostrar? Porquê tão pouco cuidado, tanto desleixo?

Uma das hipóteses, ainda que académica, é a de Capucho achar que estaria a promover o turismo e que o casino é fundamental para esse turismo; outra, será a de que Capucho não vê qualquer mal em, ao jantar, se assistir a espectáculos que ofendem as convicções morais e religiosas de certas pessoas (ou, provavelmente, de todas, naquele caso). Seja como for, foi um péssimo anfitrião e a ideia que projectou foi, apenas, a de um país rasca.
 

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