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Expresso - 19 de Outubro de 2002
Abertura global
João Carlos Espada
DURANTE dois dias, na Fundação Calouste Gulbenkian, uma lufada de ar fresco
soprou sobre Lisboa e trouxe-nos de volta o encanto dos ideais que (ainda)
animam as sociedades abertas do Ocidente.
Um após outro, grandes nomes da ciência, da cultura e das religiões
recordaram-nos aquilo que somos por vezes tentados a esquecer: que as nossas
sociedades livres não são fundadas na opressão, mas na liberdade, na livre busca
do bem e da verdade e no respeito pela pessoa humana.
David S. Landes, numa vigorosa defesa dos descobrimentos portugueses, recordou o
que esteve subjacente ao empreendimento dos grandes navegadores: o desejo de
aprender, melhorar, corrigir, ir sempre um pouco mais longe da próxima vez. Os
grandes críticos dos descobrimentos e da «globalização» são aqueles para quem
«tirar é mais fácil do que fazer».
Isso mesmo foi realçado pela impressionante intervenção de um economista
africano, professor Daniel Etounga-Manguelle, dos Camarões. Classificando de
arcaizantes os traços dominantes da sua cultura natal, Manguelle declarou que a
esperança do desenvolvimento africano reside na abertura: abertura comercial,
mas sobretudo abertura intelectual à inovação, à experimentação e à gradual
evolução de pontos de vista herdados.
Esta é a linguagem comum da ciência, recordou o recém-laureado com o Nobel da
Física, Sydney Brenner. Com a medição e o cálculo, disse Brenner, Galileu criou
a ciência moderna - um método para tentar resolver problemas. Isto envolve a
audácia de conjecturar novas teorias, a audácia de as submeter a teste, e a
suprema audácia de humildemente reconhecer os erros: aprender com os erros e
aceitar mudar de opinião é a chave do progresso científico, disse Brenner, numa
reminiscência dos argumentos de Karl Popper.
Popper seria expressamente citado no final da elegante palestra de Mário Vargas
Llosa. Manter intacta uma qualquer identidade cultural, sublinhou Llosa, é um
sonho irrealista que sempre acabou no pesadelo do fechamento total. Na verdade,
nenhuma identidade cultural é inteiramente fixa, uma vez que, estando viva, está
também em permanente e gradual mutação. E as culturas mais vibrantes são as mais
abertas, mais capazes de absorver e de se enriquecer com contributos exteriores.
Estas e muitas outras contribuições, brilhantemente sumariadas na intervenção
final de Eduardo Marçal Grilo, recordaram-nos que a globalização é uma
oportunidade, não uma ameaça. Tem certamente custos e problemas, e estes devem
ser serenamente enfrentados. Mas a globalização oferece a todos, e sobretudo aos
mais pobres, a oportunidade de partilhar e dialogar, de ir mais longe. E,
sobretudo, de desafiar a pobreza imposta a milhões de seres humanos por regimes
despóticos que sobrevivem à custa do fechamento dogmático. Regimes para os
quais, como observou David S. Landes, «tirar é mais fácil do que fazer».
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