22 de Outubro de 2000 - Público

Primeira Cooperativa de Ensino Nasceu Há 25 Anos 

Nasceu a 10 de Setembro de 1974, num dia de sol. A revolução tinha sido há pouco e a ideia de juntar um grupo de pessoas e "meter mãos à obra" para resolver um problema tornara-se comum. A Cebe foi a primeira cooperativa de ensino em Portugal. Dura até hoje e mora num palacete cor-de-rosa, em Benfica, Lisboa. É gerida exclusivamente por pais que agora - tal como outros fizeram no passado, porque não havia outra escola na zona para deixar os filhos -, oferecem serões depois de um dia de trabalho e passam manhãs alimentadas a café para dar conta de uma tarefa que desde o início foi considerada "hérculea". 

A Cebe (sigla de Cooperativa de Ensino de Benfica) recebe crianças desde os três meses de idade até ao final do quarto ano do 1º ciclo. Quase 200. Desde o primeiro dia de aulas até o filho sair da escola, cada pai é também sócio. E a história repete-se há 25 anos. Muitos dos sócios de hoje foram já alunos. "Cria-se uma relação muito forte com este local; no meu caso, a voz do passado falou mais alto na hora de escolher uma escola para o meu filho", diz Maria João Pires, ex-aluna, um dos elementos da actual equipa directiva. Mas não é só isso: "Como mãe, é muito importante para mim poder entrar aqui à hora que me apetece, falar com os professores. Ou assistir a uma manhã de aulas [como aconteceu no início do ano lectivo]... Tudo isso é fundamental". 

Já houve tempos em que a escola esteve quase em auto-gestão, porque nem todas as pessoas que vão para a direcção têm a mesma disponibilidade, continua Maria João. Tal como nem todos os pais participam da mesma forma quando é preciso trabalhar. Ainda assim, a relação das famílias dos alunos da Cebe com os professores é, reconhece, muito diferente da que se encontra noutros estabelecimentos de ensino. O facto de a maioria dos pais pertencer a uma classe social "média alta e ter formação universitária" ajuda. A mensalidade é de 58 contos. 

Reunião semanal
Cada reunião semanal de pais é descrita como um momento especial: "As dos pré-escolar e creche são as mais giras. Fala-se dos cocós e dos chichis... as dúvidas todas. Nota-se imenso a diferença entre os pais de primeiros filhos e os outros... a ansiedade". A participação não fica por aqui. "Fazêmo-nos valer das mais-valias profissionais de cada um. Dos engenheiros e arquitectos, se é preciso fazer obras, dos jornalistas, se é preciso ter jornais". À direcção cabem os restantes trabalhos, a gestão financeira (uma mãe economista dá uma ajuda preciosa nos balanços e orçamentos) e a contratação de professores, por exemplo. 

Helena Barros, educadora, está ligada à escola há 24 anos. Desde logo porque também o seu filho foi, há 15 anos atrás, aluno da Cebe. Aqui os pais são os patrões mas isso, diz, não retira autonomia a quem ensina. É claro que fazem mais perguntas, que eventualmente tentam 'meter a colher' no trabalho do professor, e isto "tem vantagens e desvantagens". Mas no fim consegue-se o equilíbrio e "a autonomia do docente é respeitada". Maria João dá um exemplo: nunca percebeu para que servem os trabalhos de casa, já houve grandes discussões à volta do assunto, mas não é por isso que os professores deixam de passá-los duas vezes por semana. 

Os critérios para escolher um funcionário são sempre os mesmos. Em primeiro lugar está "o lado humano". "Esta é uma escola muito familiar, do beijinho, do afecto", diz, orgulhosa. Depois é uma desgraça quando os meninos chegam ao final do 4º ano e têm de mudar para uma escola como todas as outras: "Chamam-lhes os pintainhos, os meninos da Cebe são os pintainhos. No último dia de aulas choram eles, choramos nós e os professores. É uma choradeira horrível". 

A.S.

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