22 de Outubro de 2000 - Público

Famílias e docentes começam, lentamente, a aprender a trabalhar em conjunto na escola
Terça-feira Há Reunião de Pais 
Por ANDREIA SANCHES

Apesar das leis e do reconhecimento geral de que as famílias têm um papel a desempenhar lado a lado com os professores, só muito lentamente os encarregados de educação aprendem a trabalhar em conjunto: uns com os outros e com a escola. O PÚBLICO esteve num estabelecimento de ensino gerido por pais há 25 anos. E num outro, igual a tantos, onde a participação dos familiares só recentemente começou a ser visível. Em comum têm as reuniões fora de horas, depois de um dia de trabalho, quando os filhos já estão a dormir. E o empenho. 

É terça-feira e passa pouco das 22h00. Na Escola Básica 2,3 D. António da Costa, em Almada, há uma sala que continua com a luz acesa, apesar de os alunos terem há muito esvaziado os corredores e os recreios. Uma dúzia de pais e mães reúne-se à volta de uma mesa, passa de mão em mão folhas fotocopiadas, fuma cigarros. 

É uma das muitas reuniões organizadas pela associação de pais. O ritual cumpre-se todas as terças-feiras. Às 21h30 comparecem os que podem. Nunca são muitos, se se pensar que nesta escola estão matriculadas 1300 crianças com idades entre os 12 e os 15 anos - o que corresponderá, grosso modo, a 2600 pais e mães. 

"Quando há uma convocatória [dirigida aos pais] que diz que há droga na escola, que há facas a circular nas mãos dos miúdos, como aconteceu no ano passado e, mesmo assim, eles não aparecem, o que é que eu posso pensar? Que se estão a borrifar. Que largam aqui os miúdos como se fossem um caixote e vêm buscá-los no final do dia, à espera que ainda estejam inteiros" - o desabafo vem da boca de um encarregado de educação, num momento de discussão mais intensa. "No 1º ciclo é diferente, as famílias interessam-se, até porque a escola só fica com os meninos "x" horas por dia. Aqui estão o dia inteiro, é mais fácil desligar...", explica alguém do lado de lá da mesa. 

No ano passado, os membros desta associação foram chamados a participar em 45 conselhos disciplinares, um conselho pedagógico por mês e três assembleias de escola. Hoje tentam ver quem é que tem disponibilidade para uma reunião já agendada com um grupo parlamentar (mais uma para debater os problemas de segurança e as carências ao nível do apoio psicológico). É ainda preciso preparar o discurso para o próximo plenário de escola. E dar uma vista de olhos nos relatórios e contas que alguém preparou em casa. Quando toda a gente trabalha, como é o caso, não é fácil arranjar tempo para cumprir todas as tarefas. 

Problemas disciplinares dispararam
Todos concordam que tem havido progressos - "há quatro anos a associação tinha duas pessoas". Por outro lado, o tempo em que os professores viam os pais como intrusos está a acabar - quanto mais não seja porque o novo regime de autonomia e gestão dos estabelecimentos de ensino assim o obriga, explica um pai mais irónico. 

Famílias e docentes começam, lentamente, a aprender a trabalhar em conjunto. E os pais organizam-se, estudam legislação, desdobram-se em contactos, assumem-se como "mais um recurso do estabelecimento de ensino". É certo que a convivência com a restante comunidade escolar nem sempre é pacífica, que às vezes há incompreensões, lamentam. 

O que se passou na D. António da Costa no último ano lectivo não facilitou a vida a ninguém: os problemas disciplinares dispararam. Os assaltos à volta do estabelecimento de ensino, a apreensão de armas brancas e um caso de venda de droga nos recreios levaram mesmo a associação a escrever uma carta ao ministro. 

O reforço da segurança ainda não chegou, o que, dizem alguns, não augura nada de bom para o ano lectivo que agora começou.f+b f-b"E depois vem o ministro falar dos números da Escola Segura. Aqui, em Almada, há 120 escolas para dois carros-patrulha da PSP!", lamenta um dos pais, enquanto acende mais um cigarro. 

"É pena que tantas das nossas energias sejam despendidas com estas questões", explica João Carlos, presidente da associação. Porque há outras: desde o pífaro que falta na sala de música ao equipamento que podia arranjar-se para os laboratórios. Enquanto o relógio se aproxima rapidamente das 11 da noite, não faltam ideias para resolver estes problemas. "Andar de porta em porta a pedir dinheiro"; "ir directamente a uma loja e prometer publicidade na escola em troca do pífaro"; "só é preciso que nos digam o que é que falta!" Até parece fácil. 

Infelizmente, para já, o desafio número um é aumentar o "rebanho" de pais que estão dispostos a despender tempo. "Há pessoas que vão dizer que estamos aqui por questões políticas", antevê uma mãe convicta. "O maior problema é o sentimento de impotência. Temos de convencer os outros pais de que não é preciso ser cientista de foguetões para participar", remata Carlos Bispo, representante dos encarregados de educação no Conselho Pedagógico. 

Uma voz sobrepõe-se às outras. É Gabriela, uma mãe que acabou de estrear-se nestas lides: "Eu estou aqui por causa dos meus filhos. Foi assim que me convenceram a vir. Acho que é esse o discurso que devemos ter. Mais do que falar dos estatutos, das questões técnicas, falem-lhes do que lhes toca mais fundo: o bem-estar dos filhos". Será que vai resultar? 
 

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