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22 de Outubro de 2000 - Público
Recomeço de Aulas - a Perspectiva dos Pais
Por JOSÉ M. MOUTELA
Ao lermos o texto escrito pelo estudante e presidente da Confnaes [Confederação Nacional das Associações de Estudantes do Ensino Básico e Secundário], Miguel Mendes, sobre a reabertura do ano lectivo, retivemos a ideia-força: "Só com um amplo debate público, por parte de todos os intervenientes no processo educativo, se pode introduzir as alterações profundas de que o ensino carece." Foi para nós interessante, e significativo, saber que os estudantes do ensino secundário estão atentos e activos em matéria que é, no essencial, a base da sua formação académica. Não estão sós nas preocupações e ansiedades. A comunidade educativa é hoje estruturalmente, e, desde sempre na prática, alargada aos pais e encarregados de educação.
Os pais são, por excelência, os primeiros e principais responsáveis pela educação dos filhos. A escola, o ensino, surgem como complemento da educação/formação iniciada na família. É o ensino, a aprendizagem dos saberes, o desenvolvimento intelectual e físico dos jovens, dos nossos filhos, concretizado fora do ambiente da família, mas não pode o mesmo realizar-se longe, à margem dos pais. É, pois, sobre a participação dos pais na Comunidade Educativa que vamos fazer algumas observações.
É do conhecimento de todos que desde 1974 a forma que os pais encontraram para participar na vida da escola foi a criação de associações de pais e encarregados de educação. Estas associações assumem-se como movimento associativo, cada vez maior e mais participativo ao longo dos anos, como representantes dos pais e encarregados de educação - o movimento associativo de pais é hoje, através das suas estruturas dirigentes, parceiro social, ouvido e tido em conta nas questões do ensino. A opinião dos pais não é já meramente reivindicativa de melhores instalações escolares, de melhor segurança, é, mais que nunca, parte integrante da Escola, já que a sua crescente envolvência na gestão da escola, consequência da recente legislação (Decreto-Lei 115A/98), dá aos pais a possibilidade de poderem ser parceiros activos na educação dos seus filhos e mais, actuarem no planeamento, na criação de linhas de orientação pedagógica, no desenvolvimento e acompanhamento do projecto da escola e na avaliação das necessidades de direccionar o ensino de encontro às realidades locais e nacionais.
Paralelamente, a participação dos pais é um meio de criar nestes uma maior motivação e um maior sentido de que a educação/formação do cidadão não se esgota no fim de um curso, de um ciclo escolar. A cidadania é um constante assimilar de ideias, de iniciativas, de uma visão das realidades e de ter sobre estas um sentido crítico. Temos por experiência própria o exemplo de pais que até à sua participação nas reuniões da associação não se sentiam "à vontade" para falar com um professor. Fizeram no movimento associativo a sua própria formação/educação, o seu desenvolvimento em termos de desinibição, exorcizaram ali os seus fantasmas, criados enquanto alunos, enquanto filhos de pais a quem foi cerceada a liberdade, a quem foi um dia dito que "na escola quem manda é o professor".
Aos pais hoje é-lhes difícil acompanhar o "mundo" dos jovens. As novas tecnologias são mais facilmente absorvidas pela juventude. Mas existe um capital enorme de experiências acumuladas que aos pais cabe saber partilhar com toda a comunidade educativa. A partilha destas experiências, estamos a falar da área do ensino, tem um fórum próprio - a escola. A presença dos pais nas escola, presença física, é por si só um sintoma de que estão atentos e preocupados, mas também é sinal de confiança na escola como espaço de efectivo desenvolvimento das capacidades dos seus educandos. Sabem, os pais, que podem e devem sempre ser críticos, podendo exercer essa crítica nas reuniões dos órgãos gestores do estabelecimento em questão.
Neste ano lectivo, os pais, como movimento associativo, vão estar atentos em especial à questão do ensino pré-escolar e básico. O problemas dos ATL [Actividades de Tempos Livres] e das refeições servidas no 1º ciclo do ensino básico terá que evoluir no sentido de uma maior atenção e responsabilidade por parte do Estado. Os pais não se demitem da sua quota-parte de responsabilidade. Exigimos do Estado o mesmo.
Numa perspectiva de criar um ainda maior envolvimento dos pais nas questões do ensino, isto é, através das associações de pais, criar um elo de ligação entre estes e os professores, os auxiliares de educação (por vezes esquecidos), e todos os agentes da comunidade educativa local, é também prioridade das estruturas nacionais e regionais desenvolver uma dinâmica que cative os pais para uma actividade onde podem complementar a tarefa que é sua - a educação dos seus filhos.
Tal como Miguel Mendes, vamos ao trabalho! Há tanto para fazer. É o futuro desta geração que está em jogo. Vale a pena investir na juventude. Nós apostamos na educação. Porque nós, pais, queremos para os nossos filhos uma educação, uma aprendizagem de saberes e uma consolidação de valores humanos que seja motivadora para o futuro deles enquanto cidadãos.
*vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais
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