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14 de Outubro de 2000 - Expresso
Money, money, money...
CADA dia que passa, a sociedade desce mais um degrau.
Se o ecrã da televisão é o espelho do país - porque representa, em princípio, aquilo que os portugueses gostam de ver - o país está cada vez mais primitivo, boçal, inculto, movido por instintos básicos.
Em todos os canais, nas horas de maior audiência, um largo espaço de tempo é hoje ocupado por programas onde se distribui dinheiro.
Na RTP 1, além do «Quem Quer Ser Milionário», agora com Maria Elisa, há o «Quebra Cabeças».
Na SIC há «A Febre do Dinheiro», com o importado Carlos Cruz, mantendo-se a «Roda dos Milhões», à qual se acrescentou «A Família Dot».
E a TVI foi buscar Luísa Castel-Branco ao CNL, para fazer o «Dinheiro à Vista», e Carlos Ribeiro à RTP, para fazer o «Tic Tac Milionário».
Todos estes programas são mais ou menos iguais e alguns são mesmo decalcados de outros.
Os concorrentes vão sendo confrontados com perguntas às quais corresponde uma dada quantia em dinheiro.
Se acertarem, ganham a quantia correspondente e continuam a jogar; se desistirem, vão-se embora com o que ganharam; se errarem, perdem tudo ou quase tudo.
Como se vê, a mecânica é simples.
E através dessa simplicidade ficam patentes duas coisas: a sofreguidão pelo dinheiro e a ignorância dos concorrentes.
Os concorrentes sofrem, espremem-se, suplicam ao apresentador uma ajuda: fazem o que for preciso para ganhar o dinheiro em jogo.
Simultaneamente, põem a nu, na maior parte dos casos, uma monumental ignorância, o desconhecimento de coisas elementares, a quase total ausência de cultura.
Sede de dinheiro e ignorância: eis dois dos traços mais marcantes da sociedade actual.
As pessoas acreditam que a felicidade se compra com dinheiro - isto é, se atinge através do consumo desenfreado, da aquisição sôfrega de mais e mais bens materiais.
Esta é uma das características das épocas de decadência.
Não desesperemos, porém - nem confundamos este tempo com a aproximação do fim do mundo.
A Humanidade já atravessou outras épocas de decadência.
Há que confiar no instinto de sobrevivência do ser humano.
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