7 de Outubro de 2000 - Correio da Manhã

PAREDES DE COURA QUER MAIS BEBÉS E VIDA MELHOR

BRAGA (Delegação) - A falta de alunos nas escolas do concelho de Paredes de Coura suscitou aos responsáveis camarários a ideia de lançar incentivos económicos à natalidade. Mas, "antes disso é preciso criar melhores condições de vida", numa região que se sente esquecida pelo Poder Central, reconhece o vice-presidente da Câmara Municipal, António Esteves. "A população está a decrescer de uma maneira muito significativa e estamos, de facto, perante um concelho envelhecido", constata o autarca, sublinhando a necessidade de encontrar fórmulas de inverter a tendência, que "põe já em perigo a existência de algumas freguesias". No meio da polémica em torno da decisão da autarquia em construir um edifício para albergar os menos de 300 alunos do ensino primário existentes nas 21 freguesias courenses, surgiu a ideia de criar um incentivo financeiro para os jovens terem mais filhos, mas entre a população logo se chamou a atenção para os perigos da iniciativa. Nunca se falou sobre a legalidade, regulamentação ou sustentação financeira do "eventual projecto", porque "antes de tudo é preciso criar condições para que os jovens se fixem", alerta o vice-presidente da autarquia. Por isso mostra-se satisfeito pelo impacto que a ideia provocou na comunicação social, por forma a poder lembrar o Poder Central dos "direitos de igualdade do interior em relação ao litoral", reclamando, sobretudo, vias de comunicação - algumas parecem da idade da pedra - e incentivos aos industriais. 

'São precisas mais coisas' 

Casais de todas as idades em Paredes de Coura são unânimes em assegurar que não é por causa de dinheiro que haverá mais filhos. "Agora, até há melhores possibilidades do que antigamente e, apesar disso, os nascimentos são cada vez menos", desabafa Noémia Soares, de 63 anos. O jovem Abílio Rodrigues revela que "as pessoas partem à procura de melhores salários e outro tipo de trabalho e de vida". Sente que, "infelizmente, a população está a envelhecer e a diminuir", e aponta a Escola Profissional do Alto Minho - que o próprio frequenta - como "uma boa solução para fixar os jovens, porque cria mais hipóteses de emprego". Aproveitando o fim-de-semana alargado para descansar na casa de campo em Coura, o portuense Luís Rocha garante que "as famílias conscientes só vão ter mais filhos quando depararem com um futuro menos incerto no que toca às condições de acesso à saúde, ao ensino e ao trabalho". Maria Cândida Carvalho, de 40 anos, tem dois filhos e confessa que se vê "perdida" com as despesas. "Um apoio da câmara seria uma boa ajuda, mas depois quem tem de trabalhar somos nós, porque para ter mais filhos são precisas mais coisas", explica, acrescentando que nem dispõe de "casa em condições". Noémia Soares e o marido Francisco, da freguesia de Furmariz, testemunham que "as pessoas da terra vão todas para o estrangeiro e para as grandes cidades, só cá ficam os velhos", mas atribuem a falta de nascimentos ao planeamento familiar e ao comodismo da modernidade. "Agora não querem filhos. Só querem um ou dois, porque dão muito trabalho e há muitos modos de matar pulgas com as costas", explica aquele casal. Na escola primária de Ferreiros a redução de alunos é visível. A professora Manuela sustenta que, até consegue ter 17 alunos, mas juntando os quatro anos de escolaridade, com prejuízo claro para os miúdos, porque está sozinha. Daí que considere benéfica a junção de todos os alunos da primária num só edifício. Quem não tem razões de queixa é a "Ousam", cujos jardins de infância registam cada vez mais crianças, conforme atesta a educadora Sandra Santos. Mas isso apenas se deve ao facto de a instituição ter um horário que satisfaz melhor os pais - em comparação com a rede pública - e um sistema de transporte eficaz, reunindo crianças de várias freguesias. 

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